quinta-feira, 24 setembro , 2026

Na ONU, Trump ameaçou uso da força na América Latina e rejeitou limites globais à IA

por Adriana Dias
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, usou a tribuna da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), em Nova York, para apresentar uma política externa marcada pela defesa dos interesses norte-americanos, pela possibilidade de novas ações militares na América Latina e pela disputa internacional em torno da inteligência artificial (IA).

No discurso realizado na terça-feira (22), Trump afirmou que os Estados Unidos poderão recorrer às Forças Armadas para proteger o que considera interesses nacionais no Hemisfério Ocidental. Ao mesmo tempo, rejeitou iniciativas internacionais destinadas a estabelecer mecanismos globais de governança para a IA e defendeu que Washington preserve sua vantagem tecnológica diante da China.

As declarações ocorreram logo após o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que levou à ONU uma posição diferente sobre as relações internacionais, com defesa do multilateralismo, da soberania dos países e da não interferência externa.

TRUMP VOLTOU A ADMITIR USO DA FORÇA NA AMÉRICA LATINA

Ao tratar da política dos Estados Unidos para a América Latina e o Caribe, Trump citou diretamente a Venezuela e afirmou que Washington não aceitará o avanço de ameaças aos interesses norte-americanos na região.

“Nossas ações na Venezuela provam que os EUA não permitirão mais que ameaças à América [EUA] ganhem terreno em qualquer parte do Hemisfério Ocidental. E, se necessário, usaremos nosso poderio militar inigualável para garantir os interesses nacionais vitais dos EUA”, disse.

A Venezuela ocupou parte relevante do pronunciamento. Trump voltou a defender a operação militar realizada pelos Estados Unidos no país em janeiro e comentou o acordo envolvendo a exploração de petróleo venezuelano firmado posteriormente com o governo de Delcy Rodríguez.

“Foi uma guerra, mas talvez seja o maior negócio já realizado. Ao vencedor pertencem os espólios; todos vocês já ouviram isso”, comentou Trump.

Segundo a Agência Brasil, o acordo permite que uma empresa ligada ao Pentágono controle até 21% do petróleo venezuelano.

A intervenção norte-americana havia sido justificada pelo governo Trump com acusações relacionadas ao narcotráfico e à caracterização da Venezuela como um “narcoestado”. Posteriormente, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos retirou a acusação de que Nicolás Maduro comandaria o chamado “Cartel de Los Soles”. A existência e a natureza dessa organização são objeto de divergência entre especialistas.

Em setembro, os Estados Unidos também retiraram a Venezuela da relação de países classificados pelo governo norte-americano como aqueles que não cumprem suficientemente suas obrigações internacionais de combate às drogas.

CARTÉIS FORAM COMPARADOS AO ESTADO ISLÂMICO

Outro ponto do discurso foi o combate ao narcotráfico. Trump comparou cartéis latino-americanos ao Estado Islâmico (ISIS), organização terrorista que ganhou projeção internacional a partir de conflitos no Iraque e na Síria.

“Acionei as Forças Armadas dos Estados Unidos para eliminá-los. Os cartéis são o ISIS do Hemisfério Ocidental”, disse.

A comparação faz parte de uma estratégia adotada pelo governo norte-americano para tratar organizações criminosas da região sob uma perspectiva de segurança nacional.

O tema provoca divergências entre Washington e governos latino-americanos porque a classificação de grupos criminosos como organizações terroristas pode ampliar os instrumentos políticos, econômicos e militares utilizados pelos Estados Unidos.

Trump mencionou especificamente o México. Apesar de dizer que mantém boa relação com o governo da presidente Claudia Sheinbaum, cobrou uma atuação mais intensa contra os cartéis.

“Portanto, o México deve retomar o controle de seu território das mãos dos inimigos da humanidade”, afirmou o presidente dos EUA.

Sheinbaum, por sua vez, tem defendido a cooperação bilateral contra o narcotráfico, mas rejeitado iniciativas que considere interferência norte-americana em assuntos internos mexicanos.

LULA DEFENDEU SOBERANIA ANTES DO DISCURSO DE TRUMP

A fala de Trump ocorreu imediatamente depois da participação de Lula na Assembleia Geral. O presidente brasileiro concentrou parte do pronunciamento na defesa da soberania e do multilateralismo.

Ao abordar especificamente a América Latina e o Caribe, Lula afirmou que a proximidade com a maior potência militar do planeta ocorre em um momento de fortalecimento do que chamou de “tentações hegemônicas”.

“Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais, a divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais”, destacou.

Lula também afirmou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém” ao defender a autonomia dos países latino-americanos diante das grandes potências.

Os discursos consecutivos evidenciaram posições distintas sobre o exercício do poder internacional. Enquanto Lula enfatizou soberania, negociação e cooperação multilateral, Trump apresentou a força militar como uma possibilidade para a proteção dos interesses considerados estratégicos pelos Estados Unidos.

TRUMP TAMBÉM REJEITOU GOVERNANÇA GLOBAL PARA A IA

A política para a América Latina não foi o único ponto do discurso com repercussão internacional. Trump também dedicou parte de sua fala à inteligência artificial e rejeitou mecanismos multilaterais destinados a estabelecer regras para a tecnologia.

“Os Estados Unidos também rejeitam totalmente qualquer tentativa de criar um esquema globalista para controlar a inteligência artificial”, afirmou.

A declaração ocorre em meio à disputa entre Estados Unidos e China pelo desenvolvimento e pela cadeia produtiva da IA.

Washington trabalha para estruturar uma rede tecnológica baseada em países considerados “parceiros confiáveis”, enquanto Pequim defende uma governança internacional mais ampla e sistemas de código aberto, segundo a Agência Brasil.

A discussão vai além do desenvolvimento dos modelos de IA. Chips avançados, centros de dados, energia, minerais estratégicos, infraestrutura digital e padrões tecnológicos passaram a integrar a competição entre as duas maiores economias do mundo.

TRUMP DISSE QUE NÃO PRETENDE DESACELERAR DESENVOLVIMENTO DA IA

Trump também rejeitou a possibilidade de restringir o ritmo de desenvolvimento da inteligência artificial nos Estados Unidos.

“No momento, estamos muito à frente da China e de todos os outros. E vamos manter essa vantagem. Vamos manter uma postura firme e decidida. Não vou sufocar o crescimento de algo que será maior do que a Revolução Industrial”, disse.

A posição contrasta com propostas de pesquisadores, especialistas e integrantes da própria indústria tecnológica que defendem mecanismos de segurança mais rigorosos para acompanhar a evolução dos modelos mais avançados.

A discussão ganhou importância diante do volume de recursos direcionados à infraestrutura de IA e das dúvidas sobre riscos econômicos, sociais e tecnológicos associados ao crescimento acelerado do setor.

O Banco de Compensações Internacionais (BIS), por exemplo, alertou em relatório citado pela Agência Brasil para o risco de investimentos excessivos em projetos cujo retorno financeiro permanece incerto.

PRESIDENTE DOS EUA PROPÔS CHAMAR IA DE “SUPERINTELIGÊNCIA”

Trump ainda surpreendeu ao defender uma mudança na maneira como a inteligência artificial é denominada.

“Daqui para frente, será oficialmente chamada de superinteligência. Mudamos o nome porque o uso da palavra “artificial” faz a inteligência parecer falsa”, afirmou.

A declaração também abriu uma discussão sobre a maneira como sistemas de IA são apresentados ao público.

O especialista em governança de IA Ettore Arpini, ouvido pela Agência Brasil, avaliou que a escolha do termo possui uma dimensão política associada à disputa pela liderança tecnológica.

“Tem uma dimensão política também, porque em Washington tem uma narrativa de que os Estados Unidos liderem a IA. Chamar a AI de superinteligência também ajuda a construir essa narrativa que favorece os EUA”, comentou.

Para Arpini, o debate central deveria estar menos concentrado no nome dado à tecnologia e mais nas capacidades, no grau de autonomia e nos mecanismos de controle desses sistemas.

“Isso pode até nos distrair. O que importa é quais capacidades esses sistemas têm, quão autônomos eles são, quem os governa e quais consequências produzem sobre a sociedade – e quais países estão se preparando”, afirmou.

DISCURSO EXPÔS DISPUTAS SOBRE PODER MILITAR E TECNOLÓGICO

Os dois temas abordados por Trump convergem para uma questão que atravessou a Assembleia Geral: como o poder internacional será exercido diante do enfraquecimento de mecanismos multilaterais, do crescimento das tensões geopolíticas e da rápida evolução tecnológica.

Na abertura do encontro, o secretário-geral da ONU, António Guterres, havia apontado justamente conflitos armados, desigualdade, mudanças climáticas e inteligência artificial entre os principais desafios globais.

No caso da IA, Guterres defendeu responsabilidade, transparência e cooperação internacional diante de uma tecnologia que avança em velocidade superior à capacidade das instituições de estabelecer mecanismos de controle.

Trump apresentou uma abordagem distinta. Tanto ao tratar da América Latina quanto da inteligência artificial, colocou a preservação dos interesses e da liderança dos Estados Unidos no centro de seu discurso — seja pela possibilidade de emprego da força militar, seja pela manutenção da vantagem norte-americana na corrida tecnológica.


Com informações de Agência Brasil

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