Sobre as histórias que contamos até que elas pareçam realidade.
No comecinho dos anos de 1970, lembro-me de uma série de TV de que eu, criança, gostava muito.
Chamava-se Julia. Uma ficção que contava a história de Julia Baker, uma enfermeira negra e viúva cujo marido havia morrido na Guerra do Vietnã, e de seu filho pequeno, Corey.
Na época eu não entendia isso, mas a série foi um marco histórico na televisão por trazer uma mulher negra como protagonista de uma produção de destaque.
Foi lançada em 1968, ano marcado pelo assassinato de Martin Luther King Jr. e por intensos protestos contra o racismo e a Guerra do Vietnã.
A série quebrou barreiras ao apresentar a protagonista sob uma perspectiva totalmente nova para a época.
Julia Baker era uma mulher negra, de classe média alta, instruída, que trabalhava como enfermeira em uma grande empresa aeroespacial e criava seu filho sozinha.
A produção mostrou uma dinâmica familiar negra baseada no afeto, na dignidade e na normalidade do cotidiano, algo que a televisão da época negava a essa parcela da população.
Diahann Carroll, a atriz que dava vida a Julia Baker, tornou-se um ícone de estilo. Sua imagem elegante na tela desafiava os padrões estéticos eurocêntricos da mídia tradicional.
O sucesso de Julia abriu espaço para que, nos anos 1970, surgissem comédias e dramas com elencos majoritariamente negros e abordagens mais diretas sobre a realidade social.
Bem, quando comecei a escrever este texto, eu só ia citar o que aconteceu em um episódio para exemplificar uma ideia. Mas fui pesquisar sobre a série e achei tão sensacional o que li que resolvi incluir tudo isso aqui.
Agora, voltando ao que pretendia escrever, Julia foi chamada à escola porque Corey só fazia desenhos com giz de cera preto. Nenhuma outra cor. O que, a princípio, deixou todo mundo muito preocupado e alimentou várias hipóteses.
A pedagoga, a psicóloga, a diretora e também Julia, a mãe, tinham, cada uma, uma teoria: depressão, uma determinada forma de ver o mundo, sei lá mais o quê.
Mas aí tiveram uma ideia “brilhante”: vamos perguntar ao Corey por que ele só usa giz de cera preto.
Ele respondeu:
“É por causa das minhas pernas.”
“Hã?!”
“Sim. Minhas pernas são curtinhas. Sou o menor da turma. Quando a atividade é desenho livre e a professora diz: ‘Podem pegar os lápis e desenhar!’, todo mundo corre primeiro e pega os lápis coloridos. E, para mim, ficam só os pretos.”
E pronto.
O menino não estava deprimido. Não estava expressando uma visão sombria do mundo. Não havia ali nenhum enigma psicológico a ser decifrado.
Havia apenas um menino que, naquele momento, era menor que os colegas.
E, por isso, chegava por último aos lápis coloridos.
Gosto muito dessa história porque ela tem uma explicação absolutamente simples para um problema que os adultos haviam tornado extraordinariamente complexo.
Cada um havia olhado para o mesmo fato e construído, a partir dele, uma realidade possível.
Os desenhos eram pretos.
Isso era um fato.
Todo o resto era interpretação.
E é aí que a história do Corey começa a ficar menos engraçada.
Porque nós fazemos isso o tempo todo.
Acontece alguma coisa. Vemos. Interpretamos. Ligamos os pontos. Preenchemos os espaços que não conhecemos. E, quase sem perceber, transformamos nossa interpretação em realidade.
O curioso é que, depois de inventarmos uma explicação, passamos a enxergar o mundo de acordo com ela.
Se alguém não nos cumprimenta, pode ser porque está zangado conosco.
Se não responde a uma mensagem, pode ser porque perdeu o interesse.
Se uma pessoa nos olha de determinado jeito, pode estar nos julgando.
Se um projeto não dá certo, podemos concluir que não somos bons o bastante.
O acontecimento é um.
As histórias que contamos sobre ele podem ser muitas.
E há uma diferença enorme entre as duas coisas.
Uma das coisas mais difíceis é perceber onde termina o que aconteceu e começa aquilo que nós mesmos colocamos sobre o acontecimento.
Então, nossa realidade não é feita apenas do que acontece.
É feita também do que percebemos, do que lembramos, do que esperamos, do que tememos, do que aprendemos a reconhecer e, principalmente, do significado que damos às coisas.
Duas pessoas podem estar sentadas à mesma mesa, ouvindo a mesma conversa, olhando para as mesmas pessoas, e voltar para casa com histórias completamente diferentes sobre o que aconteceu.
Cada uma, se não houver nenhuma conversa a respeito, volta para casa com a sua realidade.
E isso é fascinante.
Mas é um pouco perigoso também.
Porque somos muito bons em acreditar nas histórias que nós mesmos contamos.
Depois de algum tempo, já nem lembramos que foram histórias. Parecem fatos.
É assim que uma hipótese vira certeza.
Uma impressão vira julgamento.
Uma lembrança vira verdade.
Uma experiência vira regra.
E, de repente, estamos vivendo dentro de uma realidade que ajudamos a construir sem sequer perceber que participamos da obra.
O mais curioso é que, quando isso acontece, raramente nos damos conta de que há outras pessoas construindo realidades ao nosso redor e que elas também acreditam profundamente nas suas.
Na maioria das vezes, não estamos apenas interpretando o que aconteceu. Estamos defendendo a realidade que construímos a partir do que aconteceu.
E aí me lembro de novo dos desenhos do Corey.
Há momentos em que não estamos apenas diante de pessoas diferentes, interpretando a mesma coisa de maneiras diferentes.
Estamos diante de pessoas vivendo em mundos diferentes.
E há uma coisa ainda mais difícil de admitir: nem todos os mundos são construídos do mesmo lugar.
Há quem viva em um mundo onde a falta de dinheiro é uma preocupação, mas não uma ameaça. Onde uma escola ruim pode ser trocada por outra. Onde uma doença pode ser tratada no melhor hospital particular. Onde o preço dos alimentos incomoda, mas não determina o que vai para a mesa. Onde a violência é uma notícia que se vê na televisão, e não um barulho que se escuta da janela.
Há quem nunca precise pensar muito sobre determinadas coisas porque elas simplesmente funcionam.
E, quando a nossa vida nos protege de certas experiências, é fácil imaginar que aquilo que não vemos não existe. Ou que existe, mas está longe demais para ter alguma relação conosco.
Talvez seja aí que a nossa capacidade de desenhar o mundo se torne mais perigosa.
Porque podemos construir uma realidade tão confortável, tão coerente com a nossa própria experiência, que já não precisamos sair dela para compreender o que acontece do lado de fora. E, justamente para proteger essa visão da realidade, podemos passar a rejeitar tudo aquilo que a contradiz.
O problema é que o mundo não termina na nossa rua, no nosso bairro, na nossa profissão, na nossa conta bancária, na escola dos nossos filhos, na nossa sala de jantar, ou no grupo de pessoas com quem convivemos.
E domingo, quando milhões de brasileiros forem às urnas, cada um levará consigo, entre tantas outras coisas, o mundo que conseguiu enxergar.
O desafio não é enxergar tudo. Ninguém consegue.
É desconfiar daquilo que parece óbvio apenas porque, para nós, sempre foi assim.
Há guerras acontecendo, pessoas sendo expulsas de suas casas, crianças crescendo sob o barulho das bombas, populações inteiras tentando sobreviver, mudanças climáticas que já deixaram de ser uma previsão distante, gente trabalhando exaustivamente para conseguir o mínimo para a sua família. Há também uma quantidade gigantesca de informação circulando, sendo recortada, editada, distorcida, repetida e, agora, até fabricada.
Corey tinha a resposta.
Ele só precisava que alguém perguntasse.
Precisamos disso também.
Perguntar mais.
Antes de concluir.
Antes de julgar.
Antes de transformar a nossa experiência em medida para a experiência dos outros.
Porque o mundo que desenhamos a partir da nossa própria vida pode ser bonito, coerente e absolutamente verdadeiro para nós.
Só não podemos esquecer que ele é apenas um desenho.
O mundo é maior.