Avançar para o conteúdo

Pesquisa da UFSC revela que OSCs de Florianópolis defendem um jornalismo mais conectado à realidade local

O jornalismo local em Florianópolis continua sendo considerado indispensável para a democracia e para a atuação das organizações da sociedade civil, mas precisa se tornar mais plural, participativo, transparente e conectado às necessidades da população. Essa é a principal conclusão do relatórioO que a sociedade civil de Florianópolis espera do jornalismo local? Usos, interesses, financiamento, participação e modelos de organização, produzido pelo Laboratório de Práticas para o Jornalismo Local a Serviço dos Públicos (LocalJor), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

A pesquisa entrevistou representantes de 251 organizações da sociedade civil entre outubro e dezembro de 2025 para compreender como essas instituições utilizam o jornalismo, quais são suas expectativas em relação aos veículos locais e quais mudanças consideram necessárias para fortalecer a produção de informação de interesse público na capital catarinense.

Mais do que medir hábitos de consumo de notícias, o estudo procurou responder uma questão considerada estratégica pelos pesquisadores: como reconstruir a relação entre o jornalismo e a sociedade em um cenário de crise econômica, perda de confiança e transformação digital.

PESQUISA QUER ENTENDER COMO REINVENTAR O JORNALISMO LOCAL

O levantamento integra o projeto LocalJor, desenvolvido pelo grupo de pesquisa Transformações Estruturais do Jornalismo (TransformaJor), vinculado aos Programas de Pós-Graduação em Jornalismo e em Sociologia e Ciência Política da UFSC.

Segundo o relatório, a pesquisa parte da compreensão de que a crise do jornalismo não está relacionada apenas às dificuldades financeiras enfrentadas pelos veículos de comunicação. Ela também envolve mudanças profundas na forma como as pessoas consomem informação, a fragmentação das audiências, a redução da confiança pública e o distanciamento entre as redações e as comunidades que deveriam representar.

Os pesquisadores argumentam que simplesmente buscar novas fontes de receita ou investir em inovação tecnológica já não é suficiente para enfrentar esses desafios.

Na avaliação da equipe, tornou-se necessário discutir também novos modelos institucionais, capazes de aproximar a sociedade das decisões que envolvem o jornalismo local.

ESTUDO DEFENDE UM JORNALISMO DE SERVIÇO PÚBLICO

Um dos diferenciais da pesquisa é a defesa de um modelo de jornalismo de serviço público não estatal e sem fins lucrativos, construído em diálogo permanente com organizações da sociedade civil e voltado às necessidades informativas da população.

O relatório sustenta que a lógica exclusivamente empresarial pode entrar em conflito com o interesse público, especialmente em nível local, onde a sustentabilidade econômica dos veículos se tornou um dos maiores desafios da atividade jornalística.

Como alternativa, os pesquisadores propõem discutir formas de governança compartilhada entre jornalistas e representantes da sociedade civil, preservando a autonomia editorial, mas ampliando a participação comunitária na definição dos rumos das organizações jornalísticas.

A proposta dá continuidade a uma linha de pesquisas iniciada ainda em 2016, quando o grupo passou a investigar formas de fortalecer o jornalismo local a partir das necessidades concretas dos públicos, e não apenas da perspectiva das empresas de comunicação.

MAIS DE 250 ORGANIZAÇÕES PARTICIPARAM DO LEVANTAMENTO

A pesquisa foi realizada entre 6 de outubro e 5 de dezembro de 2025.

Inicialmente, o objetivo era ouvir todas as organizações da sociedade civil existentes em Florianópolis, universo estimado em 726 entidades mapeadas a partir de bases do Ipea e do Instituto Comunitário Grande Florianópolis (ICOM). Durante o trabalho de campo, entretanto, dificuldades operacionais levaram os pesquisadores a adotar uma amostra composta por 251 organizações.

As entidades representam uma ampla diversidade de áreas de atuação, incluindo:

  • educação;
  • cultura;
  • assistência social;
  • direitos humanos;
  • saúde;
  • esporte;
  • meio ambiente;
  • associações comunitárias;
  • sindicatos;
  • associações empresariais;
  • pesquisa e inovação;
  • planejamento urbano.

Para facilitar a análise estatística, essas organizações foram posteriormente agrupadas em sete grandes categorias, permitindo comparar percepções conforme o perfil institucional de cada grupo.

JORNALISMO É CONSIDERADO IMPORTANTE, MAS HÁ INSATISFAÇÃO COM O MODELO ATUAL

Logo no início da pesquisa aparece um dado que resume boa parte das conclusões do estudo. Embora 83,7% das organizações considerem o jornalismo local importante ou muito importante para suas áreas de atuação, isso não significa que estejam satisfeitas com o jornalismo atualmente produzido em Florianópolis. Na avaliação dos pesquisadores, existe um aparente paradoxo.

As entidades reconhecem que o jornalismo desempenha papel essencial para a democracia, para o acompanhamento das políticas públicas e para a circulação de informações de interesse coletivo. Ao mesmo tempo, demonstram insatisfação com aspectos considerados fundamentais para esse papel social.

Entre as principais críticas aparecem:

  • falta de pluralidade de pontos de vista;
  • pouca abertura para participação da sociedade;
  • cobertura insuficiente de temas considerados relevantes;
  • dificuldade de representar adequadamente diferentes segmentos sociais.

Segundo o relatório, isso demonstra que o problema não está na importância atribuída ao jornalismo, mas na percepção de que ele ainda não atende plenamente às necessidades informativas das organizações que atuam diariamente na cidade.

MENOS DA METADE UTILIZA AS NOTÍCIAS PARA TOMAR DECISÕES

Outro dado considerado significativo pelos pesquisadores mostra que existe diferença entre reconhecer a importância social do jornalismo e utilizá-lo efetivamente no cotidiano institucional. Apenas 41,4% das organizações afirmaram utilizar sempre ou quase sempre informações publicadas pela mídia local para orientar suas decisões. Outras 21,9% disseram recorrer às notícias apenas ocasionalmente, enquanto 35,4% responderam que nunca ou quase nunca utilizam esse tipo de informação em seus processos decisórios.

Segundo o relatório, essa diferença pode indicar que boa parte das pautas produzidas atualmente não dialoga suficientemente com as necessidades concretas das organizações sociais.

Os pesquisadores observam que as entidades parecem atribuir valor ao jornalismo enquanto instituição democrática, mas esperam uma cobertura mais conectada aos problemas cotidianos enfrentados pelas comunidades.

PESQUISA DEVE ORIENTAR AS PRÓXIMAS ETAPAS DO PROJETO

Esta investigação representa a segunda etapa de um projeto mais amplo desenvolvido pelo LocalJor. Na primeira fase, realizada anteriormente, foram entrevistados 604 moradores de Florianópolis, buscando compreender hábitos de consumo de notícias, confiança na imprensa e disposição para participar da produção jornalística. Agora, o foco passou para as organizações da sociedade civil, consideradas atores estratégicos na construção de um ecossistema informativo mais plural e representativo.

Os resultados obtidos servirão de base para novas pesquisas e para o desenvolvimento de propostas voltadas à criação de modelos inovadores de governança do jornalismo local, aproximando jornalistas, organizações sociais e cidadãos na construção de uma informação pública de maior qualidade.de informação pública de qualidade.

ENTIDADES RECONHECEM IMPORTÂNCIA DO JORNALISMO, MAS APONTAM FALTA DE PLURALIDADE E PARTICIPAÇÃO

Apesar de o jornalismo local ser amplamente reconhecido como um instrumento essencial para a vida democrática e para o funcionamento das organizações da sociedade civil, a pesquisa da UFSC mostra que existe um descompasso entre a importância atribuída à atividade e a avaliação do jornalismo efetivamente produzido em Florianópolis.

Os resultados indicam que as entidades valorizam a existência de uma imprensa forte, mas defendem mudanças significativas na forma como ela dialoga com a sociedade, seleciona suas pautas e incorpora diferentes perspectivas na cobertura cotidiana.

O JORNALISMO É CONSIDERADO ESSENCIAL PARA A MAIORIA DAS ENTIDADES

A primeira seção da pesquisa procurou medir a importância do jornalismo para as atividades desenvolvidas pelas organizações participantes. Os resultados mostram um consenso expressivo.

Nada menos que 74,5% classificaram o jornalismo local como “muito importante”, enquanto outros 9,2% o consideram “importante”. Somadas, essas duas categorias representam 83,7% das respostas.

Por outro lado, apenas 6,4% afirmaram que o jornalismo possui pouca importância para suas atividades, enquanto 9,2% adotaram uma posição intermediária.

Na interpretação dos pesquisadores, esse resultado demonstra que o jornalismo continua ocupando um papel estratégico para organizações que atuam em áreas como educação, saúde, assistência social, meio ambiente, direitos humanos, cultura e desenvolvimento comunitário.

Isso ocorre porque essas instituições dependem da circulação de informações públicas para acompanhar políticas governamentais, mobilizar cidadãos, fiscalizar ações do poder público e fortalecer o debate democrático.

IMPORTÂNCIA NÃO SIGNIFICA SATISFAÇÃO

Embora o reconhecimento da relevância do jornalismo seja quase unânime, a pesquisa mostra que essa percepção não se traduz automaticamente em satisfação com a cobertura produzida atualmente. Quando a pergunta passa da importância institucional para o uso prático das notícias no cotidiano, os números mudam significativamente.

  • Apenas 22,7% afirmaram utilizar sempre informações do jornalismo local para tomar decisões.
  • Outros 18,7% responderam que recorrem às notícias com frequência.
  • Isso significa que somente 41,4% utilizam regularmente informações produzidas pela imprensa local em suas atividades.

Enquanto isso:

  • 21,9% utilizam apenas ocasionalmente;
  • 22,7% quase nunca utilizam;
  • 12,7% nunca utilizam esse tipo de informação.

Segundo os autores do estudo, essa diferença não representa uma contradição. Na avaliação deles, quando perguntadas sobre a importância do jornalismo, as organizações respondem levando em consideração seu papel democrático e social. Já quando avaliam o uso cotidiano das notícias, consideram se a cobertura realmente oferece informações úteis para suas decisões diárias. Essa diferença sugere que parte das necessidades informativas dessas organizações continua sem atendimento adequado pelo jornalismo local.

ORGANIZAÇÕES VEEM LIMITAÇÕES NO JORNALISMO PRODUZIDO EM FLORIANÓPOLIS

Outro bloco da pesquisa procurou entender como as entidades avaliam diferentes características do jornalismo local. Foram analisados aspectos como:

  • variedade de veículos;
  • pluralidade de opiniões;
  • atendimento às necessidades da população;
  • estímulo à participação social;
  • relevância geral do jornalismo.

Os resultados revelam uma percepção bastante crítica em alguns desses indicadores.

PLURALIDADE É UM DOS PRINCIPAIS PONTOS DE INSATISFAÇÃO

Entre todos os aspectos avaliados, o pluralismo foi um dos que receberam pior avaliação.

Quando perguntadas se o jornalismo local de Florianópolis é aberto a diferentes pontos de vista:

  • 51% das entidades discordaram totalmente ou parcialmente dessa afirmação.
  • Outras 23,9% adotaram posição neutra.
  • Apenas 23,1% concordaram que a imprensa local apresenta efetivamente diversidade de perspectivas.

Para os pesquisadores, esse resultado demonstra que muitas organizações entendem que determinados grupos sociais, temas e visões de mundo ainda possuem espaço reduzido na cobertura jornalística da cidade.

A percepção ganha relevância porque as entidades entrevistadas representam setores bastante diversos da sociedade civil organizada.

VARIEDADE DE VEÍCULOS TAMBÉM DIVIDE OPINIÕES

Ao avaliar se Florianópolis possui uma boa diversidade de veículos jornalísticos, as respostas aparecem mais equilibradas.

  • Cerca de 37,8% concordam que existe boa variedade de meios de comunicação.
  • Por outro lado, 32,2% discordam dessa avaliação.
  • Outras 28,7% adotaram posição intermediária.

Na interpretação apresentada no relatório, o problema parece não estar apenas na quantidade de veículos disponíveis, mas principalmente na diversidade editorial e na representação de diferentes segmentos da sociedade.

QUATRO EM CADA DEZ ENTIDADES DIZEM QUE A IMPRENSA NÃO ATENDE ÀS NECESSIDADES DA POPULAÇÃO

Outro dado chama atenção. Quando questionadas se o jornalismo local atende às necessidades informativas da população de Florianópolis:

  • 40,6% discordaram total ou parcialmente.
  • Em contrapartida, apenas 28,3% concordaram com essa afirmação.
  • Outras 29,5% permaneceram neutras.

Segundo os pesquisadores, isso indica que muitas organizações enxergam lacunas importantes na cobertura jornalística, especialmente em temas ligados às demandas coletivas da cidade.

PARTICIPAÇÃO SOCIAL AINDA É CONSIDERADA LIMITADA

A abertura do jornalismo para participação da comunidade também recebeu avaliação predominantemente negativa. Questionadas se a imprensa local favorece a participação social, política e comunitária:

  • 43,4% discordaram.
  • Somente 22,7% concordaram.
  • 31,9% responderam de forma intermediária.

Na avaliação dos pesquisadores, esse resultado reforça a percepção de que o jornalismo ainda mantém uma relação predominantemente unilateral com seus públicos.

Em vez de criar mecanismos permanentes de diálogo e construção coletiva das pautas, boa parte da cobertura continua funcionando em um modelo tradicional de comunicação.

MESMO COM CRÍTICAS, A MAIORIA NÃO CONSIDERA O JORNALISMO IRRELEVANTE

Apesar das avaliações críticas sobre pluralidade, participação e cobertura, as organizações não acreditam que o jornalismo tenha perdido sua importância. Quando confrontadas com a afirmação de que “o jornalismo local existente em Florianópolis já não é relevante”:

  • 60,9% discordaram.
  • Apenas 14,8% concordaram.
  • Outras 22,3% adotaram posição neutra.

Para os autores do estudo, esse talvez seja um dos resultados mais significativos da pesquisa. As entidades não defendem menos jornalismo. Ao contrário, elas demonstram desejar um jornalismo mais próximo das comunidades, mais aberto ao diálogo, mais plural e capaz de responder às necessidades coletivas da cidade.

PESQUISADORES IDENTIFICAM UM “PARADOXO”

Ao interpretar os resultados dessa primeira etapa analítica, os pesquisadores identificam aquilo que chamam de um paradoxo. De um lado, existe amplo reconhecimento da importância democrática do jornalismo. De outro, cresce a percepção de que a cobertura atualmente produzida não atende plenamente às demandas informativas das organizações sociais. Segundo o relatório, isso indica que o desafio para o jornalismo local não é convencer a sociedade de sua importância.

O desafio passa a ser reconstruir vínculos de confiança, ampliar a pluralidade de vozes, diversificar os temas cobertos e criar formas permanentes de participação da comunidade na produção da informação.

REDES SOCIAIS LIDERAM O ACESSO ÀS NOTÍCIAS, MAS VEÍCULOS TRADICIONAIS SEGUEM COMO PRINCIPAL REFERÊNCIA PARA AS ENTIDADES

Além de avaliar a qualidade do jornalismo local, a pesquisa do LocalJor buscou compreender como as organizações da sociedade civil se informam sobre Florianópolis, quais veículos consideram mais confiáveis e quem ocupa hoje o papel de principal referência na produção de notícias sobre a cidade.

Os resultados mostram que as redes sociais se consolidaram como principal porta de entrada para o consumo de informação. No entanto, quando o assunto é credibilidade, os veículos jornalísticos tradicionais continuam ocupando posição de destaque entre as entidades pesquisadas.

INSTAGRAM É O PRINCIPAL MEIO PARA ACOMPANHAR AS NOTÍCIAS DA CIDADE

A primeira pergunta desta etapa procurou identificar por qual meio as organizações costumam obter notícias sobre Florianópolis. O levantamento mostra que 57% das entidades utilizam prioritariamente redes sociais para acompanhar os acontecimentos locais. Dentro desse universo, o Instagram aparece de forma absolutamente dominante. Segundo a pesquisa:

  • 45,8% utilizam principalmente o Instagram;
  • 29,9% acessam sites ou portais jornalísticos;
  • 8% recorrem à televisão;
  • 6,8% acompanham canais de WhatsApp;
  • 2% utilizam rádio;
  • 1,6% citaram grupos de WhatsApp;
  • 1,6% utilizam Facebook;
  • 1,2% acompanham canais no YouTube.

Outras respostas apareceram de forma pontual, incluindo sites oficiais, meios acadêmicos e órgãos públicos. Os pesquisadores observam que a predominância do Instagram acompanha uma tendência já identificada em outras pesquisas nacionais sobre consumo de notícias. Ao mesmo tempo, os dados demonstram que o ambiente digital passou a concentrar boa parte da circulação da informação local.

PORTAIS JORNALÍSTICOS CONTINUAM COM PAPEL RELEVANTE

Embora as redes sociais sejam a principal porta de entrada para as notícias, o estudo ressalta que isso não significa abandono do jornalismo profissional. Somados, os veículos tradicionais — portais de notícias, televisão, rádio e jornais impressos — ainda representam 40,2% das principais fontes utilizadas pelas entidades. Entre eles, o formato digital é claramente predominante.

Quase um terço dos entrevistados (29,9%) afirmou acessar principalmente sites ou portais de organizações jornalísticas para acompanhar os acontecimentos da cidade.

Na avaliação dos pesquisadores, isso demonstra que, mesmo diante da expansão das plataformas digitais, o jornalismo profissional continua exercendo um papel importante na mediação da informação pública.

PESQUISA DIFERENCIOU O MEIO UTILIZADO DA FONTE CONSIDERADA MAIS IMPORTANTE

Após perguntar onde as entidades costumam buscar notícias, os pesquisadores fizeram uma segunda pergunta aberta. Em vez de indicar apenas um meio de comunicação, os participantes puderam citar livremente veículos, jornalistas, canais ou perfis considerados suas principais referências sobre Florianópolis.

Foram registradas 343 menções, posteriormente organizadas em nove categorias:

  • mídia tradicional;
  • arranjos alternativos;
  • jornalistas e influenciadores;
  • veículos universitários;
  • perfis humorísticos e informativos;
  • órgãos públicos;
  • políticos;
  • sindicatos e movimentos sociais;
  • respostas não especificadas.

Essa organização permitiu compreender não apenas onde as entidades encontram notícias, mas também quem efetivamente inspira maior confiança.

MÍDIA TRADICIONAL LIDERA ENTRE AS FONTES MAIS CONFIÁVEIS

O resultado mostra que os veículos tradicionais continuam sendo a principal referência informativa das organizações. Mais da metade das citações (53,6%) foi destinada à mídia tradicional.

Os chamados arranjos alternativos apareceram em segundo lugar, com 12,2% das menções.

Em seguida vieram:

  • respostas não especificadas (14,9%);
  • jornalistas e influenciadores (7,3%);
  • órgãos públicos (5%);
  • perfil humorístico/informativo (3,8%);
  • políticos (1,7%);
  • mídia universitária (0,9%);
  • sindicatos e movimentos sociais (0,6%).

Para os pesquisadores, esse resultado indica que o jornalismo profissional continua ocupando posição central na construção da credibilidade da informação local.

NSC E ND DOMINAM AS CITAÇÕES

Entre todos os veículos mencionados espontaneamente pelas entidades, dois grupos de comunicação concentram ampla vantagem.

  • A NSC foi citada 97 vezes, tornando-se a principal referência jornalística da pesquisa.
  • Na sequência aparece o Grupo ND, com 62 menções.

Também figuram entre as fontes mais lembradas:

  • Desacato (21 citações);
  • Floripa Mil Grau (13);
  • Prefeitura de Florianópolis (8);
  • CBN (7);
  • televisão, de forma genérica (6);
  • redes sociais (5);
  • G1 (5);
  • Rádio Campeche (4);
  • Instagram (4);
  • Portal Catarinas (4).

Os pesquisadores observam que a forte presença dos grandes grupos pode estar relacionada tanto ao alcance de audiência quanto ao relacionamento cotidiano dessas empresas com as organizações entrevistadas.

ARRANJOS ALTERNATIVOS TAMBÉM GANHAM ESPAÇO

Embora apareçam muito atrás dos grandes conglomerados, os chamados arranjos alternativos conquistam espaço relevante na pesquisa. Entre eles, o Desacato foi o mais lembrado, seguido pela Rádio Campeche e pelo Portal Catarinas.

Segundo o relatório, esses veículos receberam especialmente citações de organizações ligadas ao campo progressista e a movimentos sociais.

Na interpretação dos pesquisadores, esse resultado demonstra que diferentes segmentos da sociedade civil buscam referências informativas alinhadas às suas áreas de atuação e às agendas públicas que defendem.

JORNALISTAS SÃO LEMBRADOS INDIVIDUALMENTE

Outro aspecto interessante é que algumas organizações citaram diretamente profissionais da imprensa como principal fonte de informação. Os nomes mais lembrados foram: Upiara Boschi, Amanda Miranda e Diogo de Souza. Também houve uma citação à urbanista conhecida pelo perfil Drag Urbana, incluída pelos pesquisadores na categoria de jornalistas e influenciadores por produzir conteúdo informativo sobre a cidade.

Embora representem apenas 7,3% das respostas, essas menções mostram que a credibilidade ainda pode estar associada ao trabalho individual de determinados profissionais.

FLORIPA MIL GRAU APARECE ENTRE AS PRINCIPAIS FONTES

Um dos resultados mais curiosos da pesquisa envolve o perfil Floripa Mil Grau. Apesar de não se apresentar como veículo jornalístico, o perfil apareceu como a quinta fonte de informação mais citada, com 13 menções. O relatório lembra que o perfil publica informações em tempo real sobre trânsito, acidentes, chuvas, ocorrências policiais e acontecimentos cotidianos, além de utilizar linguagem humorística.

Os pesquisadores destacam que esse resultado difere da primeira etapa do estudo, realizada com moradores da cidade. Naquela pesquisa, o Floripa Mil Grau havia ocupado a primeira colocação entre as principais fontes de informação da população. Entre as organizações da sociedade civil, entretanto, a preferência desloca-se para os veículos jornalísticos tradicionais.

Segundo o relatório, essa diferença pode estar relacionada às necessidades específicas das entidades, que buscam informações mais aprofundadas e úteis para suas atividades institucionais.

CREDIBILIDADE DO JORNALISMO CONTINUA ELEVADA

Ao interpretar os resultados desta seção, os pesquisadores afirmam que existe um aspecto particularmente relevante. Mesmo diante da fragmentação do ambiente digital e do crescimento das redes sociais, as entidades continuam atribuindo elevada credibilidade ao trabalho jornalístico.

Segundo o relatório, acompanhar notícias produzidas por veículos profissionais ainda representa uma forma importante de compreender a realidade local, fortalecer o debate público e legitimar as ações desenvolvidas pelas próprias organizações da sociedade civil.

Ao mesmo tempo, o número relativamente elevado de respostas que não conseguiram identificar claramente sua principal fonte de informação (14,9%) é interpretado como um reflexo da crescente fragmentação do consumo de notícias, característica do ambiente digital contemporâneo.

EDUCAÇÃO, MEIO AMBIENTE E MOBILIDADE LIDERAM AS PRIORIDADES DAS ENTIDADES PARA O JORNALISMO LOCAL

Se a segunda parte da pesquisa revelou que as organizações da sociedade civil enxergam limitações no jornalismo produzido em Florianópolis, a terceira etapa do estudo buscou responder outra pergunta fundamental: quais assuntos deveriam receber maior atenção da imprensa local?

Os resultados mostram uma forte convergência entre entidades de diferentes áreas. Em vez de priorizar conteúdos voltados ao entretenimento ou ao consumo, a maior parte das organizações espera uma cobertura mais aprofundada sobre políticas públicas, qualidade de vida, direitos sociais e desenvolvimento da cidade.

EDUCAÇÃO É O TEMA CONSIDERADO MAIS IMPORTANTE

Na primeira parte desta etapa, os pesquisadores apresentaram uma lista de 14 temas e pediram que as entidades avaliassem o grau de importância de cada um para a cobertura jornalística local. O resultado mostra uma hierarquia bastante clara das prioridades. A educação apareceu em primeiro lugar. Das 251 organizações entrevistadas, 237 classificaram o tema como importante ou muito importante para o jornalismo local.

Na avaliação dos pesquisadores, o resultado demonstra que a cobertura educacional extrapola o ambiente escolar e é percebida pelas entidades como um tema estratégico para o desenvolvimento da cidade.

MEIO AMBIENTE SURGE COMO SEGUNDA MAIOR PRIORIDADE

Logo atrás aparece o meio ambiente, considerado importante ou muito importante por 225 entidades. O destaque acompanha características próprias de Florianópolis, município que convive simultaneamente com áreas de preservação ambiental, crescimento urbano acelerado, conflitos fundiários, expansão imobiliária e pressões sobre recursos naturais.

Segundo o relatório, o tema aparece de forma recorrente entre organizações ambientais, movimentos comunitários, grupos ligados ao planejamento urbano e instituições de pesquisa.

COMUNIDADES E CIDADANIA COMPLETAM O GRUPO DE MAIOR INTERESSE

O terceiro tema mais valorizado foi Comunidades, apontado como importante ou muito importante por 221 organizações. Na sequência aparecem:

  • Cidadania e prestação de serviços (220);
  • Política (218);
  • Cultura e arte (214);
  • Mobilidade urbana (210);
  • Saúde e bem-estar (209);
  • Segurança pública (201);
  • Economia (197);
  • Trabalho e emprego (196);
  • Esporte e lazer (175);
  • Alimentação (166).

Os pesquisadores observam que a lista evidencia uma preferência por temas diretamente relacionados ao cotidiano da população e à formulação de políticas públicas.

ENTRETENIMENTO É O ÚNICO TEMA REJEITADO PELA MAIORIA

Entre todos os assuntos avaliados, apenas um apresentou predominância de respostas negativas. Celebridades e entretenimento foi considerado pouco ou nada importante pela maior parte das organizações entrevistadas.

Na interpretação do estudo, esse resultado demonstra que as entidades esperam do jornalismo local uma atuação fortemente orientada pelo interesse público, priorizando conteúdos capazes de contribuir para a compreensão dos problemas da cidade.

PERFIL DAS ENTIDADES INFLUENCIA AS PRIORIDADES

Além da análise geral, a pesquisa cruzou os resultados conforme a área de atuação das organizações. Embora exista grande convergência entre os diferentes grupos, algumas diferenças aparecem de forma bastante clara.

As organizações empresariais demonstram interesse muito maior por temas econômicos. Já entidades ligadas aos direitos humanos concentram atenção em mobilidade urbana, direitos e cultura. As organizações ambientais priorizam meio ambiente, segurança pública e mobilidade. Instituições voltadas ao cuidado das pessoas destacam saúde, educação e qualidade de vida. Por sua vez, organizações de pesquisa e planejamento urbano demonstram forte interesse por educação, saúde e políticas públicas.

Segundo os pesquisadores, embora essas diferenças sejam esperadas, elas revelam que as demandas por cobertura variam conforme a atuação institucional de cada segmento da sociedade civil.

EDUCAÇÃO É QUASE UM CONSENSO ENTRE TODOS OS SEGMENTOS

Mesmo com diferenças específicas, alguns temas aparecem praticamente como consenso. O relatório destaca que educação, cidadania, comunidades, meio ambiente e mobilidade urbana registram índices superiores a 80% de interesse em praticamente todas as categorias analisadas.

Na avaliação dos pesquisadores, esses resultados indicam que existe uma agenda pública compartilhada entre organizações bastante distintas, reforçando a importância desses assuntos para o jornalismo local.

ENTIDADES TAMBÉM RESPONDERAM LIVREMENTE SOBRE O QUE FALTA NO NOTICIÁRIO

Após a avaliação da lista preparada pelos pesquisadores, as organizações responderam uma pergunta aberta. Em vez de escolher entre temas previamente definidos, cada entrevistado pôde indicar espontaneamente quais assuntos considera pouco explorados pelo jornalismo local. As respostas passaram por tratamento estatístico e análise de frequência das palavras utilizadas. O resultado confirma praticamente a mesma agenda observada na etapa anterior. Os assuntos mais mencionados foram:

  • Meio ambiente (45 menções);
  • Educação (44);
  • Saúde (39);
  • Segurança pública (36);
  • Mobilidade urbana (35);
  • Questões sociais (30);
  • Cultura (24);
  • Cidade/Florianópolis (22);
  • Política (21);
  • Políticas públicas (17).

Também aparecem entre os termos mais lembrados:

  • trabalho;
  • acesso;
  • cidadania;
  • comunidades;
  • direitos humanos;
  • serviços públicos.

MOBILIDADE URBANA GANHA DESTAQUE ESPECIAL

Entre todos os resultados, um tema chamou particularmente a atenção da equipe responsável pela pesquisa. Embora mobilidade urbana apareça apenas na sétima posição quando os participantes avaliam uma lista pronta de assuntos, ela sobe para a quinta colocação quando as entidades respondem espontaneamente sobre o que gostariam de ver mais presente no noticiário.

Segundo o relatório, isso sugere que os problemas relacionados ao deslocamento, transporte coletivo, trânsito e planejamento urbano ocupam um espaço crescente nas preocupações da sociedade civil organizada.

Além disso, mobilidade aparece entre os principais temas em quatro das sete categorias de entidades analisadas, indicando tratar-se de uma demanda transversal da cidade.

AS ENTIDADES QUEREM UM JORNALISMO MAIS CONECTADO À REALIDADE LOCAL

Ao interpretar os resultados, os pesquisadores concluem que existe forte correspondência entre os assuntos considerados importantes e aqueles cuja cobertura é percebida como insuficiente. Em outras palavras, as organizações querem mais jornalismo sobre exatamente os temas que consideram essenciais para a vida cotidiana da população.

A pesquisa também mostra que as prioridades editoriais variam conforme a área de atuação das entidades, mas convergem para uma mesma direção: ampliar a cobertura de políticas públicas, serviços, direitos sociais, planejamento urbano, educação, meio ambiente e qualidade de vida.

Na avaliação da equipe do LocalJor, isso reforça a necessidade de um jornalismo menos orientado por agendas episódicas e mais comprometido com problemas estruturais que afetam permanentemente a cidade.

PESQUISA MOSTRA QUE ENTIDADES QUEREM PARTICIPAR MAIS DO JORNALISMO E COBRAM ABERTURA DAS REDAÇÕES

Se nas etapas anteriores a pesquisa identificou críticas ao pluralismo e às prioridades editoriais do jornalismo local, a quarta seção do estudo aprofunda um tema ainda pouco debatido no Brasil: o nível de participação que a sociedade civil deseja ter na produção jornalística.

Os resultados mostram que as organizações não querem apenas aparecer nas notícias. Elas defendem maior diálogo com os veículos, mais oportunidades para contribuir com pautas e até participação em instâncias de governança das organizações jornalísticas.

APENAS UM QUARTO DAS ENTIDADES É OUVIDO COM FREQUÊNCIA PELA IMPRENSA

O primeiro dado analisado diz respeito ao acesso das organizações da sociedade civil como fontes de informação. As entidades responderam com que frequência costumam ser procuradas para entrevistas pelos meios de comunicação locais. O resultado revela um acesso bastante limitado.

  • Apenas 6,4% afirmaram ser consultadas sempre.
  • Outras 18,7% disseram ser procuradas frequentemente.
  • Somadas, representam 25,1% das organizações entrevistadas.

Em sentido oposto:

  • 33,1% responderam que são procuradas raramente;
  • 12% disseram nunca serem consultadas;
  • 29,9% afirmaram que isso acontece apenas às vezes.

Segundo os pesquisadores, os dados sugerem que boa parte da sociedade civil organizada permanece praticamente invisível na cobertura jornalística cotidiana da cidade.

REPRESENTAÇÕES EMPRESARIAIS TÊM MUITO MAIS ESPAÇO NA IMPRENSA

Ao cruzar os dados por perfil das organizações, a pesquisa encontrou diferenças expressivas. As representações empresariais e de classes dirigentes aparecem como o segmento com maior presença na imprensa. Entre elas, 70,58% afirmaram ser consultadas sempre ou frequentemente pelos veículos de comunicação.

Nos demais grupos, os índices são muito menores. Entre entidades ligadas à cultura, educação, patrimônio e comunicação, apenas 28,78% relatam acesso frequente. Nas organizações voltadas ao cuidado das pessoas, esse percentual é de 26,22%. A situação é ainda mais restrita entre sindicatos e associações profissionais. Nesse grupo, apenas 7,14% afirmaram possuir acesso frequente aos veículos locais.

Na interpretação apresentada no relatório, essa diferença pode refletir o maior peso econômico e institucional das entidades empresariais, que tradicionalmente mantêm relações mais próximas com os meios de comunicação.

Ao mesmo tempo, os pesquisadores observam que essa concentração de fontes pode contribuir para reduzir a diversidade de perspectivas presentes na cobertura jornalística.

FALTA DE DIVERSIDADE DE FONTES PODE EXPLICAR A PERCEPÇÃO DE BAIXO PLURALISMO

Os autores relacionam diretamente esses resultados às críticas feitas anteriormente pelas entidades em relação ao pluralismo da imprensa. Se parte significativa das organizações quase nunca é consultada pelos veículos, há uma tendência de que determinados setores da sociedade apareçam pouco nas notícias.

Segundo o relatório, isso pode limitar a circulação de diferentes interpretações sobre os problemas da cidade e reduzir a diversidade de vozes presentes no debate público.

NOVE EM CADA DEZ ENTIDADES QUEREM MAIS INTERAÇÃO COM O JORNALISMO

Outro resultado chama ainda mais atenção. Quando perguntadas se os veículos deveriam oferecer mais oportunidades para interação com o público, a resposta foi praticamente unânime.

  • Nada menos que 90,4% responderam sim.
  • Apenas 3,2% discordaram.
  • Outras 5,6% disseram ser indiferentes à questão.

Segundo os pesquisadores, esse índice demonstra que existe uma forte expectativa por relações mais próximas entre jornalistas e comunidade.

Embora as redes sociais tenham ampliado as possibilidades de contato entre redações e leitores, as organizações entendem que isso ainda está longe de representar uma participação efetiva na construção do jornalismo.

PARTICIPAÇÃO NÃO SIGNIFICA APENAS ENVIAR SUGESTÕES

Um dos aspectos mais inovadores da pesquisa foi investigar quais formas de participação despertam interesse nas entidades. Em vez de limitar a discussão ao envio de sugestões de pauta ou comentários em redes sociais, o levantamento apresentou diferentes possibilidades de envolvimento nas organizações jornalísticas. Entre elas:

  • participação em conselhos editoriais;
  • participação em reuniões de pauta;
  • avaliação das coberturas;
  • colaboração na definição de prioridades editoriais;
  • outras formas de participação institucional.

QUASE METADE DAS ENTIDADES GOSTARIA DE PARTICIPAR DOS CONSELHOS EDITORIAIS

Quando questionadas sobre a possibilidade de integrar conselhos editoriais ou participar da gestão das organizações jornalísticas, os resultados mostram uma divisão interessante. Entre as 251 entidades:

  • 43,8% manifestaram alto interesse;
  • 19,9% demonstraram interesse intermediário;
  • 34,7% disseram possuir pouco ou nenhum interesse.

Na avaliação dos pesquisadores, trata-se de um percentual elevado para um tipo de participação ainda pouco comum no jornalismo brasileiro.

Entre os grupos mais interessados destacam-se:

  • organizações ambientais e territoriais;
  • sindicatos e representações profissionais.

Segundo o relatório, isso demonstra abertura para discutir novos modelos de governança que ampliem o diálogo entre jornalistas e sociedade.

MAIORIA TAMBÉM QUER PARTICIPAR DA DEFINIÇÃO DAS PAUTAS

A participação nas reuniões de pauta recebeu apoio ainda maior.

  • 57% das organizações afirmaram possuir interesse em contribuir diretamente para a definição dos temas que serão abordados pelo jornalismo local.
  • Outras 13,5% demonstraram interesse intermediário.
  • 29,1% responderam que não gostariam de participar desse processo.

Os maiores índices de interesse aparecem entre organizações ligadas às lutas sociais e aos direitos humanos.

  • Nesse grupo, 83,3% manifestaram desejo de participar da construção das pautas.
  • Entre sindicatos e entidades representativas de categorias profissionais, o percentual chega a 75%.

PESQUISADORES DEFENDEM UMA NOVA RELAÇÃO ENTRE REDAÇÕES E COMUNIDADE

Ao interpretar os resultados, os pesquisadores destacam que as organizações entrevistadas não demonstram interesse apenas em ocupar espaço como fontes ocasionais. Elas querem participar de forma mais estruturada da construção do jornalismo local.

Segundo o relatório, isso pode incluir mecanismos permanentes de consulta à sociedade, espaços de escuta, processos participativos de definição de prioridades editoriais e formas transparentes de governança que preservem a autonomia dos jornalistas, mas aproximem as redações das comunidades que elas pretendem informar.

Na avaliação da equipe do LocalJor, essa disposição abre caminho para discutir modelos mais colaborativos de organização jornalística, capazes de fortalecer tanto a legitimidade quanto a relevância social da imprensa local.

ENTIDADES DEFENDEM FINANCIAMENTO PÚBLICO, TRANSPARÊNCIA E NOVOS MODELOS PARA FORTALECER O JORNALISMO LOCAL

Depois de investigar como as organizações da sociedade civil avaliam o jornalismo local, quais temas consideram prioritários e como desejam participar das redações, a pesquisa da UFSC avançou para uma questão considerada decisiva para o futuro da atividade: como financiar um jornalismo de interesse público sem comprometer sua independência editorial?

As respostas revelam um cenário aparentemente contraditório, mas que, segundo os pesquisadores, expressa a complexidade da crise enfrentada pelo setor. As entidades demonstram pouca disposição para financiar diretamente os veículos com recursos próprios, mas defendem amplamente que o jornalismo continue existindo, seja fortalecido e conte com mecanismos permanentes de sustentabilidade.

A MAIORIA NÃO PAGA POR NOTÍCIAS

Um dos resultados mais expressivos da pesquisa é que cerca de 80% das organizações entrevistadas não pagam por conteúdo jornalístico. Segundo o relatório, o principal motivo apresentado pelas entidades é a limitação financeira. Muitas organizações da sociedade civil dependem de doações, editais públicos ou projetos específicos para manter suas atividades e, por isso, possuem pouca margem para assumir novas despesas permanentes. Na avaliação dos pesquisadores, esse resultado não significa desinteresse pelo jornalismo. Ao contrário.

As respostas indicam que as entidades reconhecem o valor social da atividade, mas enfrentam restrições orçamentárias semelhantes às vividas por inúmeras organizações do terceiro setor.

FINANCIAMENTO É CONSIDERADO NECESSÁRIO

Embora a maioria das entidades não esteja em condições de contribuir financeiramente com veículos de comunicação, a pesquisa mostra que elas não defendem que o jornalismo deva sobreviver exclusivamente pelas regras do mercado. O estudo aponta apoio significativo à ideia de que o jornalismo local precisa contar com mecanismos de financiamento capazes de garantir sua continuidade e sua função pública.

Entre as alternativas discutidas aparece, inclusive, a possibilidade de políticas públicas voltadas ao financiamento do jornalismo, desde que preservada a autonomia editorial das organizações jornalísticas. Segundo os pesquisadores, esse resultado demonstra que as entidades fazem distinção entre financiamento e interferência política.

SINDICATOS E ENTIDADES EMPRESARIAIS MOSTRAM MAIOR DISPOSIÇÃO PARA APOIAR O SETOR

A pesquisa também identificou diferenças importantes entre os diversos segmentos da sociedade civil. Os sindicatos e as associações empresariais foram os grupos que apresentaram maior disposição tanto para contribuir financeiramente com iniciativas jornalísticas quanto para apoiar políticas públicas de financiamento do setor.

Na interpretação do relatório, essas organizações costumam manter relação mais intensa com o debate público e dependem diretamente da circulação de informações qualificadas para representar seus associados. Por isso, tendem a reconhecer com maior intensidade a necessidade de preservar um ecossistema jornalístico forte.

TRANSPARÊNCIA É UMA DAS PRINCIPAIS DEMANDAS

Outro eixo importante da pesquisa tratou da forma como as organizações enxergam a gestão das empresas jornalísticas. Os resultados mostram que existe amplo consenso em torno da necessidade de aumentar a transparência. Segundo o levantamento, 87% das entidades defendem que o jornalismo local desenvolva mecanismos mais transparentes sobre suas decisões internas.

Na avaliação dos pesquisadores, essa transparência pode envolver diferentes aspectos:

  • critérios para definição de pautas;
  • processos editoriais;
  • formas de financiamento;
  • mecanismos de prestação de contas;
  • relação entre redações e sociedade.

O relatório afirma que fortalecer essa transparência pode contribuir para reconstruir a confiança entre jornalistas e públicos, reduzindo parte do distanciamento identificado ao longo da pesquisa.

PLURALIDADE É VISTA COMO PRINCÍPIO FUNDAMENTAL

A pesquisa também perguntou qual deveria ser a orientação editorial do jornalismo local. Os resultados mostram que existe forte preferência por um modelo aberto ao debate público. Segundo o relatório, 81,7% das entidades acreditam que o jornalismo deve estar aberto a uma pluralidade de opiniões e posicionamentos políticos, mesmo quando contraditórios entre si.

Esse resultado dialoga diretamente com uma das principais críticas identificadas nas primeiras etapas da pesquisa: a percepção de que a imprensa local ainda não contempla suficientemente diferentes perspectivas sociais.

Na interpretação dos pesquisadores, as organizações não defendem um jornalismo neutro ou indiferente aos conflitos públicos, mas sim uma cobertura capaz de representar a diversidade existente na sociedade.

INDEPENDÊNCIA EDITORIAL CONTINUA SENDO CONSIDERADA ESSENCIAL

Apesar de defenderem maior participação da sociedade civil na governança das organizações jornalísticas, as entidades também estabeleceram um limite bastante claro. Segundo a pesquisa, 65% afirmam que o jornalismo deve manter independência em relação às próprias organizações da sociedade civil.

Esse resultado é considerado especialmente significativo pelos pesquisadores. Ele demonstra que as entidades não pretendem substituir a autonomia profissional dos jornalistas nem transformar as redações em espaços de representação institucional. Pelo contrário, o estudo identifica um reconhecimento explícito da importância do trabalho jornalístico independente e da necessidade de preservar critérios técnicos e éticos na produção das notícias.

MODELOS SEM FINS LUCRATIVOS GANHAM ESPAÇO NO DEBATE

Outro aspecto discutido pela pesquisa diz respeito aos modelos de organização das empresas jornalísticas. Os pesquisadores partiram da hipótese de que a crise do jornalismo exige discutir alternativas além da estrutura empresarial tradicional. Nesse contexto, investigaram a receptividade das organizações à ideia de iniciativas jornalísticas sem fins lucrativos, sustentadas por mecanismos de governança compartilhada e maior participação da sociedade civil. Os resultados mostram que existe abertura para esse debate.

Segundo o relatório, as entidades demonstram disposição para discutir novas institucionalidades para o jornalismo local, desde que elas preservem simultaneamente:

  • autonomia editorial;
  • transparência;
  • pluralidade;
  • compromisso com o interesse público;
  • participação social.

Na avaliação da equipe do LocalJor, essas respostas indicam que parte significativa da sociedade civil está disposta a apoiar formas inovadoras de organização jornalística, diferentes tanto do modelo exclusivamente comercial quanto do controle estatal.

PESQUISADORES VEEM OPORTUNIDADE PARA RECONSTRUIR A RELAÇÃO ENTRE JORNALISMO E SOCIEDADE

Ao concluir essa etapa da pesquisa, os autores destacam que os resultados apontam para uma oportunidade de reconstrução institucional do jornalismo local. Segundo o relatório, as organizações entrevistadas continuam acreditando no valor democrático da imprensa. Reconhecem sua importância para o debate público, defendem sua continuidade e apoiam mecanismos capazes de garantir sua sustentabilidade.

Ao mesmo tempo, esperam mudanças significativas na forma como as redações dialogam com a comunidade, definem prioridades editoriais e prestam contas de suas decisões.

Na interpretação dos pesquisadores, esse conjunto de respostas sugere que o futuro do jornalismo local poderá depender menos da simples adoção de novos modelos de negócio e mais da construção de relações permanentes de confiança, transparência e participação entre jornalistas e sociedade civil.

PESQUISA APONTA CAMINHOS PARA UM NOVO MODELO DE JORNALISMO LOCAL BASEADO EM PARTICIPAÇÃO, TRANSPARÊNCIA E CONFIANÇA

Depois de ouvir 251 organizações da sociedade civil, analisar dezenas de indicadores e realizar cruzamentos estatísticos entre os diferentes perfis de entidades, o relatório do LocalJor encerra com uma conclusão clara: o problema central do jornalismo local não é a perda de relevância, mas a necessidade de reconstruir sua relação com a sociedade.

Ao longo de sete anos de pesquisas em Santa Catarina — iniciadas em Joinville, ampliadas para moradores de Florianópolis e, agora, para organizações da sociedade civil — os pesquisadores identificam um padrão consistente: a população continua valorizando o jornalismo, mas espera participar mais, compreender melhor seu funcionamento e encontrar uma cobertura mais conectada às necessidades da comunidade.

PESQUISA IDENTIFICA UM CENÁRIO DIFERENTE DA NARRATIVA DE “CRISE TERMINAL”

Embora o estudo reconheça as dificuldades econômicas enfrentadas pelo setor, os pesquisadores argumentam que os resultados não sustentam a ideia de que a sociedade perdeu interesse pelo jornalismo, pelo contrário. As organizações entrevistadas:

  • reconhecem a importância democrática da imprensa;
  • defendem sua continuidade;
  • desejam participar mais da produção jornalística;
  • apoiam mecanismos de fortalecimento institucional;
  • valorizam a independência editorial;
  • defendem maior pluralidade de vozes.

Na avaliação da equipe do LocalJor, isso demonstra que existe um espaço concreto para reconstruir a legitimidade social do jornalismo local.

O MAIOR DESAFIO PASSA A SER RECONSTRUIR A CONFIANÇA

Um dos conceitos mais recorrentes nas considerações finais do relatório é a necessidade de reconstruir os vínculos entre jornalistas e comunidade. Segundo os pesquisadores, a crise contemporânea do jornalismo não decorre apenas da redução das receitas publicitárias ou da concorrência das plataformas digitais. Ela também resulta do distanciamento entre as organizações jornalísticas e os públicos que elas pretendem representar.

Nesse contexto, transparência, participação e diálogo deixam de ser apenas estratégias de relacionamento com o público e passam a ser entendidos como elementos estruturantes da própria atividade jornalística.

TESTES ESTATÍSTICOS CONFIRMAM DIFERENÇAS ENTRE OS GRUPOS

Além das análises descritivas apresentadas ao longo do relatório, os pesquisadores aplicaram testes estatísticos do tipo Qui-Quadrado para verificar se determinadas diferenças observadas entre os grupos de entidades eram estatisticamente significativas. Esses testes confirmaram que algumas percepções variam de acordo com o perfil institucional das organizações. Entre os resultados destacados pelo estudo estão:

  • associações empresariais apresentam acesso significativamente maior aos meios de comunicação;
  • sindicatos e representações profissionais demonstram maior interesse em participar da gestão e das pautas do jornalismo;
  • organizações ambientais atribuem maior importância à cobertura sobre meio ambiente e mobilidade;
  • diferentes áreas de atuação influenciam diretamente as prioridades editoriais apontadas pelas entidades.

Segundo os pesquisadores, essas diferenças reforçam que a sociedade civil não deve ser tratada como um bloco homogêneo, mas como um conjunto diverso de organizações com demandas específicas.

TRANSPARÊNCIA SURGE COMO UM DOS MAIORES CONSENSOS

Entre todos os resultados da pesquisa, poucos alcançaram um nível de concordância tão elevado quanto a necessidade de ampliar a transparência das organizações jornalísticas. Nada menos que 86,9% das entidades concordam parcial ou totalmente que o jornalismo local precisa desenvolver mecanismos de transparência sobre suas decisões. Para os pesquisadores, esse resultado aponta um caminho concreto para fortalecer a confiança pública.

O relatório sugere que explicar como são tomadas as decisões editoriais, quais critérios orientam a escolha das pautas e como funcionam os processos internos das redações pode aproximar jornalistas e sociedade.

PARTICIPAÇÃO NÃO SIGNIFICA PERDA DE AUTONOMIA

Outro aspecto enfatizado nas conclusões é que as organizações entrevistadas não defendem interferência direta sobre o conteúdo produzido pelos jornalistas. Ao mesmo tempo em que desejam participar mais das decisões e da construção das pautas, elas também reconhecem a importância da autonomia profissional. Essa combinação aparece de forma consistente ao longo do estudo. As entidades apoiam:

  • participação social;
  • pluralidade;
  • transparência;
  • novas formas de governança.

Mas também afirmam que o jornalismo deve manter independência editorial em relação às próprias organizações da sociedade civil.

Na avaliação dos pesquisadores, isso demonstra maturidade na forma como essas organizações enxergam o papel da imprensa em uma democracia.

PRÓXIMA ETAPA SERÁ TRANSFORMAR RESULTADOS EM EXPERIÊNCIAS PRÁTICAS

O relatório deixa claro que esta investigação representa apenas mais uma etapa de um projeto de longo prazo. Segundo a equipe do LocalJor, o objetivo agora é utilizar os resultados obtidos para desenvolver experiências concretas capazes de aproximar jornalistas e sociedade.

Entre os próximos passos previstos estão a construção e o teste de modelos de governança mais participativos para iniciativas de jornalismo local, utilizando as evidências produzidas pela pesquisa como base para experimentações futuras.

A proposta é que essas experiências permitam avaliar, na prática, de que maneira mecanismos de participação social podem contribuir para fortalecer a sustentabilidade, a legitimidade e a relevância do jornalismo.

UM ESTUDO QUE VAI ALÉM DE FLORIANÓPOLIS

Embora tenha sido realizado exclusivamente com organizações da sociedade civil da capital catarinense, os pesquisadores entendem que os resultados dialogam com desafios enfrentados por diversas cidades brasileiras. Questões como: financiamento; confiança pública; pluralidade; sustentabilidade; participação da comunidade; transparência editorial; governança das organizações jornalísticas; aparecem hoje entre os principais debates internacionais sobre o futuro do jornalismo.

Ao reunir evidências empíricas produzidas diretamente com organizações da sociedade civil, o estudo oferece uma contribuição inédita para essa discussão no contexto brasileiro.

MAIS DO QUE PRESERVAR O JORNALISMO, A SOCIEDADE QUER AJUDAR A RECONSTRUÍ-LO

Talvez a principal conclusão do relatório seja justamente esta. Ao contrário da percepção de que o público estaria abandonando o jornalismo, a pesquisa mostra que as organizações entrevistadas continuam atribuindo grande importância à atividade. Elas desejam uma imprensa mais plural, mais transparente, mais aberta ao diálogo e mais conectada aos problemas reais da cidade. Também demonstram disposição para discutir novos modelos institucionais capazes de fortalecer o jornalismo local sem comprometer sua autonomia.

Na visão dos pesquisadores do LocalJor, esses resultados indicam que o futuro da atividade dependerá menos de soluções exclusivamente econômicas e mais da capacidade de construir uma nova relação de confiança entre jornalistas, organizações sociais e cidadãos — uma relação baseada na participação, na transparência e no compromisso permanente com o interesse público.

COMO ACESSAR O RELATÓRIO

O Relatório Final da Etapa 2 do LocalJor está disponível gratuitamente neste link e reúne a íntegra dos resultados obtidos junto às 251 organizações da sociedade civil participantes da pesquisa.