quarta-feira, 4 novembro , 2026

DESLIGA O GÁS, SANTA CATARINA!

A Cultura já viu o que a comunicação política insiste em normalizar

por Pedro MC
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Como já apontei em textos anteriores desta coluna, a área da Cultura em Santa Catarina convive com um boicote a produtores, obras e temas. Filmes deixam de ser exibidos em salas públicas, eventos encontram obstáculos que não são aplicados a outras iniciativas e determinados agentes culturais passam a ocupar uma zona de exclusão, como se suas ideias ou sua presença fossem incompatíveis com o espaço público.

É um processo com método e motivação política da extrema direita no poder. E agora com a derrota nas urnas da presidência, o ódio se volta a comerciantes e trabalhadores. Artista não tem privilégio mesmo!

Vazou o áudio nazista

A reportagem da jornalista Amanda Miranda, publicada pelo ICL Notícias, ajuda a localizar esse mesmo mecanismo em outro território do poder público. As conversas divulgadas do grupo de WhatsApp “Educação em Ação”, formado por pessoas com cargos comissionados e vínculos com a estrutura da Secretaria de Estado da Educação de Santa Catarina, incluem uma imagem de Adolf Hitler acompanhada da frase “Hans, liga o gás”, referência às câmaras de gás do Holocausto.

Interessante notar que a “Ação” do nome do grupo é partidária, ou seja, serve a um partido, e não à sociedade. Na cultura, na fundação cultural catarinense, isso ocorre há mais tempo. É uma vitrine partidária, em vez de atender ao público em geral.

Nestes grupos também incluem mensagens sobre identificar, listar e “caçar” trabalhadores da educação e da cultura considerados de esquerda, com sugestões de apresentar nomes ao governador Jorginho Mello para que fossem afastados.

A Secretaria de Estado da Educação afirmou que não compactua com intolerância e que apurará condutas contrárias aos princípios democráticos, e que pede “respeito”. Respeito a quem, ao nazimo?

A secretária Luciane Ceretta informou ter deixado o grupo em 27 de agosto, antes do envio da mensagem reproduzida pela reportagem. A apuração precisa esclarecer a composição do grupo, a circulação das mensagens e as responsabilidades de cada participante. O problema, porém, não desaparece com uma nota institucional, porque o grupo existiu, reuniu pessoas ligadas à máquina pública e produziu um vocabulário de perseguição. E isso é “influencer”.

A relação entre esses episódios vai além de uma coincidência de vocabulário. A perseguição cultural, as listas de boicote e a conversa sobre remover educadores pertencem a uma mesma forma de fazer política, que estabelece quais pessoas, obras e ideias podem circular e quais devem ser silenciadas, expostas ou afastadas do espaço público. Antes de se tornar ato administrativo, perseguição política costuma se apresentar como comentário de WhatsApp, piada, boicote, opinião privada ou defesa da ordem.

Sempre começa como uma piadinha. E termina com “quem me conhece sabe”.

A cultura costuma perceber esse movimento antes. Em 1976, sob a ditadura militar, o cineasta catarinense Sylvio Back lançou “Aleluia, Gretchen”, obra que acompanha uma família alemã instalada no Sul do Brasil antes da Segunda Guerra Mundial.

O hotel administrado pela família se torna ponto de encontro de simpatizantes do nazismo, enquanto a narrativa avança por décadas e mostra que certas ideias não desaparecem com a derrota militar da Alemanha de Hitler. Elas atravessam gerações, reaparecem em novas circunstâncias e encontram abrigo social quando deixam de ser tratadas como ameaça.

Embora a trama tenha como cenário o Paraná, o filme está profundamente ligado a Santa Catarina. Sylvio Back nasceu em Blumenau e realizou filmagens em cidades catarinenses, entre elas Blumenau e Joinville. Sua obra se debruça sobre as memórias e os silêncios do Sul do Brasil, região onde a imigração alemã, o integralismo, as redes de simpatia ao nazismo e os discursos autoritários formam uma história que muitas vezes foi reduzida a nostalgia, identidade étnica ou assunto inconveniente.

O filme constrói sua força ao mostrar que o nazismo não se preserva apenas por meio da imagem clássica do uniforme, da bandeira ou da saudação. Ele se acomoda na família, no comércio, na comunidade, na religiosidade, na linguagem da disciplina e na promessa de uma ordem que supostamente protegeria uma identidade ameaçada.

aleluia gretchen

A ideologia autoritária prospera quando passa a ser entendida como tradição, quando o ódio ganha a aparência de convicção moral e quando o desejo de eliminar o outro se apresenta como necessidade de limpeza.

Na sequência final de Aleluia, Gretchen, Sylvio Back leva essa percepção a uma imagem que continua devastadora: nazistas uniformizados sambam. Eles não aparecem escondidos em porões, nem são tratados como vestígio vergonhoso de um passado europeu já superado.

Eles ocupam a festa, o corpo, o ritmo popular e a paisagem brasileira. O samba transforma a cena em algo muito mais perturbador do que uma reconstituição histórica, porque indica que o nazismo encontrou uma forma de se misturar ao cotidiano, de ganhar intimidade e de ocupar a cultura sem abandonar sua violência.

É a mesma imagem dos deputados da extrema direita eleitos em São Paulo, Lucas Pavanato e Eduarda Camponiano, dançando funk comemorando a vitória.

A força profética da cena está no modo como ela expõe a capacidade de adaptação dessa ideologia. O nazismo pode deixar de se anunciar com a suástica e continuar operando por meio de piadas sobre extermínio, listas de pessoas, boicotes econômicos, censura cultural, perseguição a professores e discursos sobre inimigos internos. Ele incorpora elementos da vida popular, aprende a falar a língua do patriotismo e da ordem, encontra novos veículos de circulação e passa a sambar na nossa cara enquanto uma parte da sociedade se acostuma com sua presença.

E isso não é novidade. Voltaire em séculos atrás já disse que “não tenha medo do homem, mas tenha medo daquele que acredita em coisas estúpidas e que é capaz de cometer atrocidades”.

O neonazismo em Santa Catarina não tem exército. Agora é um simbolismo atravessado no dia a dia, quase normalizado.

A frase “Hans, liga o gás” pertence a essa normalização. Ela usa a memória do assassinato em massa de judeus, pessoas com deficiência, pessoas LGBTQIA+ e opositores políticos como ferramenta de comunicação entre pessoas vinculadas à gestão da Educação.

A mensagem carrega o imaginário do extermínio para um grupo que, além de discutir mobilização política, falava em localizar trabalhadores associados à esquerda e afastá-los de seus postos. A educação pública deveria formar cidadãos capazes de reconhecer o Holocausto como uma ruptura moral da humanidade; quando a referência às câmaras de gás circula como piada, esse compromisso é invertido.

O processo de nazificação da comunicação política não exige que todos os envolvidos se declarem nazistas ou participem de um partido nazista. Ele se revela na transformação da divergência em ameaça, do adversário em traidor, da lista em ferramenta de vigilância e do boicote em punição contra quem deve ser expulso de determinado campo social.

A linguagem da eliminação vem antes das “vias de fato”, porque ela prepara a sociedade para aceitar que algumas pessoas devam perder trabalho, renda, espaço de fala, segurança e reconhecimento público por pensarem diferente. Vetar obras artísticas já vem com uma “moral”. Que sempre é falha nela mesma, não se sustenta.

As listas de boicote divulgadas em Santa Catarina depois da reeleição de Lula são exatamente o que comissionados e alguns concursados da área da Cultura vem fazendo com artistas. Empresários, trabalhadores autônomos e estabelecimentos identificados como ligados ao PT ou à esquerda estão sendo expostos para sofrer retaliação econômica.

O Ministério Público Federal e de Santa Catarina já se manifestaram no caso das listas de comércio e falas sobre trabalhadores. Sobre Cultura, ainda não, porque o meio é fragmentado e não alcança comoção pública.

Quem divulga nome, endereço e posição política de alguém para retirar sua clientela, seu emprego ou sua tranquilidade mobiliza uma rede de punição social, na qual a sobrevivência econômica passa a depender da submissão a uma identidade política dominante.

A cultura conhece bem esse mecanismo, e temas considerados incômodos são submetidos a constrangimento até que desapareçam da programação. É o caso do meu festival Maria Joana de cinema para se discutir ciência e comportamento. É proibido este festival na Fundação Catarinense de Cultura. É vetado, censurado e perseguido, por ódio e doutrinamento da extrema direita.

Ou seja, no próprio âmbito do cinema no qual Sylvio Back produz sua obra, a determinação do que pode ser exibido ou não, é uma prática, nesse ponto de vista, neonazista. Escrevi sobre isto em vários textos.

Qual a verdadeira disputa

Está em disputa a possibilidade de viver, trabalhar, produzir cultura e exercer uma função pública sem ser alvo de perseguição por posição política. A divergência tem que ser indispensável à democracia. Ora, se você curte nazismo, você é criminoso. Se você replica esta ideologia criminosa, se atente porque o destino de Mussolini não está muito longe.

A resposta a esse ambiente exige apuração, identificação de responsabilidades e reconhecimento de que a banalização do extermínio, a criação de listas e a intimidação política não constituem brincadeira, liberdade de expressão ou simples excesso de linguagem.

Aleluia, Gretchen é muito atual porque escancara que a ideologia nazista sobrevive quando a crueldade se torna linguagem cotidiana, quando a perseguição ganha aparência de patriotismo e quando a sociedade aprende a conviver com o horror como parte natural da paisagem.

Santa Catarina precisa interromper esse aprendizado antes que o ódio, já presente na cultura e na comunicação política, encontre ainda mais espaço para o cidadão comum cometa atrocidades, e os políticos e comissionados influencers sempre vão mentir que não apitaram essa ordem, e que seu crime é individual.

Referências

ICL Notícias. ““Hans, liga o gás”: grupo de gestores da educação de Jorginho Mello tem ameaça e nazismo”. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/hans-liga-o-gas-grupo-de-gestores-da-educacao/

Revista Fórum. ““Hans, liga o gás”: grupo de gestores da Educação de Jorginho Mello tem mensagens nazistas e ameaças a servidores”. Disponível em: https://revistaforum.com.br/politica/jorginho-mello-educacao-nazismo/

Diário do Centro do Mundo. “Gestores ligados a Jorginho Mello ameaçam colegas de esquerda em grupo, diz coluna”. Disponível em: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/gestores-ligados-a-jorginho-mello-ameacam-colegas-de-esquerda-em-grupo/

Ministério Público Federal. “MPF solicita informações sobre apuração de listas de boicote e perseguição política na Região Sul”. Disponível em: https://www.mpf.mp.br/o-mpf/unidades/procuradoria-geral-da-republica-pgr/noticias/mpf-solicita-informacoes-sobre-apuracao-de-listas-de-boicote-e-perseguicao-politica-na-regiao-sul

Ministério Público de Santa Catarina. “MPSC orienta população a denunciar casos de discriminação, ameaças e perseguições por motivação política”. Disponível em: https://www.mpsc.mp.br/w/mpsc-orienta-populacao-a-denunciar-casos-de-discriminacao-ameacas-e-perseguicoes-por-motivacao-politica

ND+. “Após vitória de Lula, listas com ‘empresários de esquerda’ são divulgadas, sugerem boicote em cidades do Sul do Brasil e geram revolta nas redes sociais”. Disponível em: https://ndmais.com.br/comportamento/vitoria-lula-listas-de-boicote-empresarios-esquerda-sul-mpsc/

ND+. “Listas de boicote após vitória de Lula colocam restaurantes de SC na mira do antipetismo e estabelecimentos negam apoio partidário”. Disponível em: https://ndmais.com.br/economia/negocios/listas-de-boicote-pos-eleicao-lula-restaurantes-negam-partidario/

NSC Total. ““Demita um petista”: associações denunciam listas de boicote contra empresas apontadas como de esquerda em SC”. Disponível em: https://www.nsctotal.com.br/politica/demita-um-petista-associacoes-denunciam-listas-de-boicote-contra-empresas-apontadas-como-de-esquerda-em-sc

Cinemateca Brasileira. “Aleluia, Gretchen (1976), de Sylvio Back”. Disponível em: https://bases.cinemateca.org.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah%2Fiah.xis&base=FILMOGRAFIA&exprSearch=ID%3D023054&format=detailed.pft&lang=p&nextAction=lnk

Revista Esboços, UFSC. “Artigo acadêmico sobre memórias do nazismo e da imigração alemã no Sul do Brasil”. Disponível em: https://ojs.sites.ufsc.br/index.php/sceh/article/view/623

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