domingo, 18 outubro , 2026

O fascínio pelo sobrenome Bolsonaro e o fetiche do chicote nas eleições em SC

Como o desejo de chicotear eleitores submissos, aliado à rebeldia contra a abstração, sustenta o fetiche bolsonarista no imaginário político de Santa Catarina

por Pedro MC
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Não sou da psicanálise, mas tenho leitura de autores que pensam cinema e de filmes de autores que pensaram o fascismo na Itália. É inevitável comparar o momento político em Santa Catarina, com sua afetividade à extrema direita, com a política de extrema direita alemã e italiana de 90 anos atrás.

Com Jair Renan (04) e Carluxo (02), a figura do anti-Édipo vibra na potência de um fetiche com chicote.

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Cena de “Édipo Rei”, filme de Pier Paolo Pasolini, 1967

Deleuze e Guattari descrevem, em O Anti-Édipo (1972), o inconsciente como uma fábrica, uma máquina de desejo, longe do teatro de representações regido pela falta e pelo drama familiar. Partem de uma pergunta formulada pelo psicanalista Wilhelm Reich, em Psicologia de Massas do Fascismo (1933): por que as massas desejaram o fascismo? A resposta de Deleuze e Guattari conecta a psicologia profunda à política. O fascismo penetra no nível molecular do dia a dia, num microfascismo que opera nos desejos cotidianos.

A estrutura familiar edipiana, pai, mãe e filho, treina o inconsciente para amar a autoridade e a opressão. O inconsciente pode assumir uma postura paranoica, que busca fechar fronteiras, purificar a sociedade, criar bodes expiatórios e desejar um líder forte que ponha ordem no caos. As massas não foram simplesmente enganadas ou manipuladas pelo fascismo. Em um nível molecular, o inconsciente delas desejou a opressão daquele sistema.

Édipo, na tragédia de Sófocles, Édipo Rei, mata o pai sem saber que é o pai, e ocupa o lugar dele ao lado da mãe. A psicanálise fez desse gesto o núcleo de uma teoria sobre o desejo, na qual o filho carrega, desde sempre, a ambição de suceder aquele que o gerou, e o medo de ser por ele destronado. Deleuze e Guattari pegam essa estrutura e a viram do avesso, mostrando que o desejo se produz e se investe nas próprias estruturas que o submetem.

Esse desejo encontra condições para se replicar em momentos específicos. Quando a democracia corre riscos, quando as instituições perdem credibilidade, quando a vida comum parece não oferecer resposta para o que oprime, o fascismo encontra terreno para se apresentar como solução. É nesse intervalo que ele pode ser eleito, tomar o poder e transformar o desejo de pertencimento em máquina de dominação. O eleitor, nesse contexto, projeta sua necessidade de ser comandado com rigor.

O bolsonarismo ocupa o imaginário político de Santa Catarina com o sobrenome Bolsonaro convertido em promessa de uma nova gestão. O nome do pai chega antes dos filhos, carregando uma autoridade construída nacionalmente, uma legião de seguidores e uma disposição permanente para o confronto.

O sobrenome funciona como simulacro de uma experiência política que os candidatos precisam provar que possuem. A imagem do pai oferece a autoridade inicial, mas a fidelidade ao bolsonarismo exige que os filhos demonstrem estar à altura de sua radicalidade.

Em uma política alimentada pela provocação, pela humilhação dos adversários e pela destruição dos limites do debate público, resta saber até onde cada novo representante estará disposto a ir para reafirmar sua lealdade. O espetáculo da transgressão pode ocupar o lugar da discussão sobre serviços públicos, orçamento, infraestrutura e políticas sociais.

Quem vota movido por essa identificação pode encontrar satisfação política na própria agressão, independentemente do que o candidato seja capaz de realizar quando precisa governar.

A figura paterna oferece um eixo de identificação para esse investimento do desejo, e o sobrenome transporta sua autoridade para os filhos. A filiação política ganha força quando a nova geração demonstra disposição para aprofundar a brutalidade que consagrou o patriarca.

O desejo fascista pode investir na destruição, na submissão e no sofrimento alheio, encontrando nessas práticas uma satisfação que independe de benefícios materiais ou de resultados administrativos.

Essa dinâmica ajuda a compreender a provocação de que o fascismo é uma rebelião contra a abstração. A abstração permite reconhecer que pátria, língua, identidade e existência comportam sentidos diferentes, que a realidade ultrapassa qualquer leitura única e que o pensamento precisa conviver com dúvidas e ambiguidades.

O fascismo procura suprimir essa multiplicidade. Seu literalismo transforma diferenças em ameaças, divergências em traições e complexidade em sinal de fraqueza. A fantasia de uma sociedade homogênea depende da eliminação, simbólica ou material, de tudo aquilo que desafia a imagem de ordem imposta pelo líder.

Na minha área, do cinema, lembro de O Conformista, de Bernardo Bertolucci, como um dos filmes que melhor capturam essa mecânica do desejo fascista. Marcello Clerici procura se ajustar à normalidade burguesa e encontra no fascismo uma promessa de pertencimento.

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Cena de O Conformista, filme de 1972 de Bernardo Bertolucci

Ao ingressar na polícia política de Mussolini, participa da perseguição e do assassinato de seu antigo professor, Quadri. O desejo de ser aceito por uma ordem dominante leva Marcello a colaborar com a violência contra aqueles que ameaçam essa ordem.

O conformismo organiza o desejo em torno da aprovação social e da necessidade de eliminar aquilo que poderia colocar a identidade do indivíduo em dúvida. Bertolucci mostra que a adesão ao fascismo raramente nasce de uma convicção elaborada; nasce, quase sempre, de uma fome de pertencer.

O bolsonarismo também oferece pertencimento por meio da hostilidade compartilhada. A identificação com o líder se alimenta da escolha de inimigos, da desqualificação de adversários e da expectativa de que a política autorize a expressão pública de ressentimentos antes contidos por convenções democráticas.

A radicalidade dos descendentes precisa ser reconhecida por essa comunidade como sinal de autenticidade. A agressão se converte em espetáculo, e a capacidade de provocar indignação passa a valer como demonstração de força política.

Quem obedece encontra, na obediência, uma posição; quem domina encontra, na dominação, uma identidade; e quem odeia encontra, no ódio, uma forma de existir que a vida comum já não oferece.

Em Os Deuses Malditos, de 1969, Luchino Visconti acompanha uma família industrial alemã que se adapta à ascensão do nazismo. Martin, o herdeiro, encarna uma radicalização que atravessa as relações familiares e se alimenta da degradação moral do ambiente em que vive.

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Cena de Os Deuses Malditos, de Luchino Visconti (1969)

O poder familiar se combina com o poder político, e a continuidade da estrutura depende da disposição de seus integrantes para aceitar e praticar a violência. Visconti mostra uma elite que encontra no fascismo condições para preservar seus interesses, mesmo quando essa adesão conduz à destruição de seus próprios vínculos.

A comparação com o bolsonarismo passa pela transformação de relações familiares em instrumentos de ocupação política: o sobrenome concentra uma autoridade que os descendentes procuram mobilizar, mas a permanência dessa autoridade depende da demonstração de fidelidade ao projeto do pai.

Em Salò ou os 120 Dias de Sodoma, de 1975, Pier Paolo Pasolini apresenta quatro figuras de autoridade que submetem jovens a um sistema de humilhação, controle e violência. As regras organizam a degradação dos corpos, enquanto subordinados executam as ordens e mantêm o funcionamento da máquina.

O poder transforma a crueldade em procedimento e a submissão em condição de sobrevivência. Pasolini expõe uma estrutura em que a violência deixa de ser um excesso individual e passa a integrar a organização cotidiana da sociedade.

A política fascista também procura normalizar a violência, delimitando quem merece respeito, quem pode ser humilhado e quais vidas podem ser tratadas como descartáveis.

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Cena de Saló ou os 120 Dias de Sodoma, de Pasolini, 1975

O moralismo autoritário define modelos rígidos de família e comportamento, enquanto discursos contra pessoas LGBTQIA+, ataques à educação e tentativas de censura restringem o campo das existências consideradas legítimas.

Em Santa Catarina, gestos públicos de exaltação da força ajudam a materializar esse repertório. A deputada federal Júlia Zanatta, reeleita com mais de 560 mil votos, apareceu com um chicote em uma comemoração política, mobilizando um símbolo associado à disciplina pela violência.

O gesto ganha significado num ambiente em que a intimidação pode ser apresentada como coragem e a humilhação do adversário como vitória.

A política se torna encenação de mando, com personagens que disputam quem consegue representar de maneira mais convincente a disposição de punir e submeter. Quem aplaude se imagina do lado de quem segura o chicote, ou aceita, com uma gratidão sádica, a posição de quem apanha.

A rebelião contra a abstração também se manifesta na hostilidade à cultura, à ciência, à educação e à liberdade artística. A arte trabalha com metáforas, ambiguidades e contradições; permite imaginar outras formas de vida e reconhecer a complexidade da experiência humana.

Essa liberdade incomoda o pensamento fascista, que precisa reduzir o mundo a identidades rígidas e interpretações únicas. Censurar artistas, perseguir pesquisadores, vigiar professores e atacar instituições culturais restringe as possibilidades de questionar a autoridade e imaginar alternativas à ordem existente.

A qualidade científica de uma linguagem que muda, que renova a língua constantemente (e incomoda com o neologismo “todes”), que formula hipóteses, que admite erro e revisão, ameaça a fantasia de verdades definitivas e de um mundo que se explica em absolutismo.

Deleuze e Guattari falam como o desejo pode aderir às estruturas que o submetem. O fascismo se sustenta pela propaganda, pela promessa de benefícios materiais e, sobretudo, pela mobilização de afetos, fantasias de poder e satisfações produzidas pela exclusão de quem foi transformado em inimigo.

É a excitação pela exclusão. Uma droga viciante de sensação de poder sobre os corpos e desejos alheios.

O desejo de destruição vem com fantasia de purificação, de restauração moral, e pior ainda, de uma revanche projetada sobre insatisfações pessoais.

Sob o sobrenome Bolsonaro, essa disposição encontra uma figura de referência e uma marca eleitoral que os herdeiros surfam na evidência de rejeição às políticas sociais.

A ocupação do imaginário garante satisfação numa preparação de confronto e expectativa de destruição dos adversários (seja por saberem que podem acabar com leis que garantem garantias para meio-ambiente, combate a violência contra mulher, bolsas de auxílio a quem precisa, ou por instituírem um golpe militar).

Os cineastas italianos sabiam dessa onda de desejo pelo fascínio. Visconti mostra uma família que se associa à degradação fascista; Bertolucci acompanha alguém que sacrifica a autonomia para ser aceito pelo regime; Pasolini expõe o poder que transforma a crueldade em sistema. Os três filmes, O Conformista, Saló e Deuses Malditos, iluminam dimensões diferentes de uma política que organiza relações de pertencimento, obediência e violência.

Em Santa Catarina, o sobrenome Bolsonaro ocupa o imaginário como promessa de autoridade e como autorização para radicalizar a hostilidade. Radicalizar não, normalizar. E alocar verba pública para quem já tem acesso a verba. É essa a lógica.

O Anti-Édipo Herdeiro é rebelde, mas não a favor de melhorias na sociedade. É rebelde com a abstração. É totalmente rebelde com a diversidade.

Os herdeiros vão precisar demonstrar que merecem o nome do Pai, e seus eleitores podem encontrar nessa demonstração a satisfação que já não esperam da administração pública. Os eleitores querem saber da treta com Michele Bolsonaro, com os desvios de verba de corrupção do Banco Master para o Flávio Bolsonaro. Nada que mova sua percepção de que é isso mesmo que querem como representantes na política. Porque o desejo é de desejar a submissão ao corrupto.

Ao mesmo tempo, esses eleitores de Zanatta, Zé Trovão, Jorginho Mello, querem mudanças radicais do Estado, mas se dizem conservadores. Está aí o principal paradoxo de conceito, não existe mudança radical, nem liberal, nem neoliberal, nem socialista, com conservadorismo. O conservador quer mudança lenta na máquina pública. Por isso é conservador. A falta de leitura e pesquisa de etimologia é um dos principais fatores do desejo ao fascismo seduzir tanto.

Enfim. Buscando a etimologia da questão, as eleições em Santa Catarina são um fenômeno eleitoral patronímico! (Adorei a palavra patronímico). A estirpe tem força, uma linhagem de raça equina praticamente.

Bolsonaro é um cognome de conotações mitológicas. A alcunha do sobrenome é de “marca pré-aprovada”. Um produto.

E é o desejo da maioria, democraticamente expresso nos votos, ok!

Mas como “marca pré-aprovada”, precisa, por trás, uma estrutura, uma base para funcionar.

A estrutura é o desejo de pertencimento a uma máquina de dominação. A máquina da motociata, emitindo gás tóxico contra o meio-ambiente e em busca do afeto da figura paterna masculina, máscula, alpha, viril e punidora, “dando de relho” em quem deseja este desejo.

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