O desemprego no Brasil atingiu o menor nível da série histórica, consolidando a recuperação do mercado de trabalho observada desde o fim da pandemia de Covid-19. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), produzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa nacional de desocupação recuou para 5,4% no trimestre móvel encerrado em junho de 2026. O desempenho confirma uma trajetória de recuperação iniciada após os impactos mais severos da crise sanitária, embora persistam diferenças importantes entre estados e regiões.
Entre os destaques nacionais está Santa Catarina, que voltou a registrar a menor taxa de desemprego do país. Os indicadores estaduais mais recentes da PNAD Contínua referem-se ao primeiro trimestre de 2026, período em que o estado alcançou 2,7% de desocupação, menos da metade da média brasileira de 6,1% observada no mesmo intervalo. O desempenho coloca Santa Catarina na liderança do ranking nacional e reforça a capacidade da economia catarinense de manter elevados níveis de ocupação mesmo em um cenário de desaceleração de alguns setores.
Além de liderar o ranking de menor desemprego, Santa Catarina também apresentou as menores taxas nacionais de subutilização da força de trabalho, informalidade e desalento, além da maior proporção de empregados do setor privado com carteira assinada. O conjunto desses indicadores mostra que o mercado de trabalho catarinense vai além de uma baixa taxa de desocupação, refletindo um ambiente com maior formalização e melhor aproveitamento da mão de obra.
SANTA CATARINA TEM TAXA DE DESEMPREGO DE 2,7%
De acordo com a PNAD Contínua Trimestral do primeiro trimestre de 2026, Santa Catarina registrou taxa de desocupação de 2,7%.
O índice foi o menor entre todas as unidades da Federação. Na sequência apareceram Mato Grosso, com 3,1%; Espírito Santo, com 3,2%; Paraná, com 3,5%; Rondônia, com 3,7%; e Mato Grosso do Sul, com 3,8%.
Na outra ponta da classificação, o Amapá apresentou a maior taxa, de 10%. Bahia, Alagoas e Pernambuco registraram 9,2%, enquanto o Piauí chegou a 8,9%.
A distância entre Santa Catarina e o resultado brasileiro foi de 3,4 pontos percentuais. A taxa nacional do mesmo período ficou em 6,1%.
Embora tenha liderado o ranking, o índice catarinense subiu em relação ao quarto trimestre de 2025, quando havia ficado em 2,2%. O aumento de 0,5 ponto percentual foi considerado estatisticamente significativo pelo IBGE.
O movimento não representa necessariamente uma reversão da trajetória de melhora. O início do ano costuma apresentar aumento sazonal do desemprego, após o encerramento de contratos temporários de fim de ano e a entrada de mais pessoas na procura por trabalho.
TAXA ANUAL CAIU AO MENOR NÍVEL DA SÉRIE EM 2025
Na média dos quatro trimestres de 2025, o desemprego em Santa Catarina ficou em 2,3%. O índice foi o menor da série histórica estadual e o segundo menor do país naquele ano, atrás apenas de Mato Grosso, que registrou 2,2%.
Os resultados fazem parte do levantamento sobre as taxas anuais de desocupação da PNAD Contínua de 2025.
A série histórica evidencia a mudança ocorrida no mercado de trabalho catarinense ao longo da última década. A taxa média anual passou de 4,1% em 2015 para 6,3% em 2016 e chegou a 7,1% em 2017, o maior valor do período analisado.
Depois disso, iniciou-se um movimento gradual de redução:
- 2018: 6,4%;
- 2019: 6,1%;
- 2020: 6,1%;
- 2021: 5,5%;
- 2022: 3,9%;
- 2023: 3,4%;
- 2024: 2,9%;
- 2025: 2,3%.
O dado de 2,7% do primeiro trimestre de 2026 não deve ser comparado como se fosse uma média anual. Ele representa somente os três primeiros meses do ano, enquanto o resultado de 2025 corresponde à média dos quatro trimestres.
ESTADO TAMBÉM TEM A MENOR SUBUTILIZAÇÃO DO PAÍS
Além da taxa oficial de desemprego, a PNAD Contínua calcula a chamada taxa composta de subutilização da força de trabalho. O indicador inclui os desocupados, as pessoas que trabalham menos horas do que gostariam e aquelas que estão disponíveis para trabalhar, mas não realizaram uma procura efetiva por vaga.
No primeiro trimestre de 2026, a subutilização ficou em 4,7% em Santa Catarina, o menor resultado do país. A média brasileira foi de 14,3%.
O contraste é ainda mais expressivo quando Santa Catarina é comparada ao Piauí, que apresentou taxa de subutilização de 30,4%, a maior entre as unidades da Federação. A diferença entre os dois estados chegou a 25,7 pontos percentuais.
Na média de 2025, Santa Catarina também havia registrado a menor taxa anual de subutilização do Brasil, de 4,6%.
O indicador reforça que o desempenho catarinense não decorre apenas de uma baixa proporção de pessoas procurando emprego. O estado combina desemprego reduzido, nível elevado de ocupação e pequena presença relativa de trabalhadores subocupados ou integrantes da força de trabalho potencial.
INFORMALIDADE É MENOR, MAS AINDA ATINGE UM EM CADA QUATRO OCUPADOS
Santa Catarina apresentou taxa de informalidade de 25,4% no primeiro trimestre de 2026, também a menor do Brasil. A média nacional ficou em 37,3%.
A informalidade considera empregados do setor privado e trabalhadores domésticos sem carteira assinada, trabalhadores por conta própria e empregadores sem CNPJ, além de trabalhadores familiares auxiliares.
O resultado catarinense indica uma estrutura de trabalho mais formalizada do que a observada no restante do país. Ainda assim, o percentual mostra que aproximadamente um em cada quatro ocupados permanece em modalidades classificadas como informais.
Entre os empregados do setor privado, 86,7% tinham carteira assinada no primeiro trimestre, a maior proporção entre as unidades da Federação.
Na média de 2025, a taxa estadual de informalidade havia ficado em 26,3%, novamente o menor resultado nacional.
A elevada formalização amplia o acesso a direitos trabalhistas e previdenciários e tende a proporcionar maior previsibilidade de renda. Contudo, a taxa de informalidade mostra que a baixa desocupação não elimina situações de instabilidade, ausência de proteção social ou trabalho por conta própria sem estrutura empresarial formalizada.
DESALENTO É DE APENAS 0,3% EM SANTA CATARINA
O percentual de pessoas desalentadas em Santa Catarina ficou em 0,3% no primeiro trimestre de 2026, o menor do país. A média brasileira foi de 2,4%.
O desalento ocorre quando uma pessoa gostaria de trabalhar e estava disponível, mas deixou de procurar uma vaga por motivos como falta de experiência, ausência de oportunidades na localidade ou percepção de que não conseguiria emprego.
Quem está nessa condição não entra na taxa oficial de desemprego, porque não realizou uma procura efetiva no período de referência. Por isso, a combinação entre baixo desemprego, baixa subutilização e desalento reduzido oferece um retrato mais completo do mercado catarinense.
NÍVEL DE OCUPAÇÃO ESTÁ ACIMA DA MÉDIA BRASILEIRA
Na média de 2025, o nível de ocupação de Santa Catarina chegou a 66,2%, o segundo maior do Brasil. O indicador mede a proporção de pessoas ocupadas dentro da população em idade de trabalhar.
A média brasileira foi de 59,1%. Isso significa que Santa Catarina possuía uma parcela proporcionalmente maior da população adulta efetivamente trabalhando.
O monitoramento realizado pela Secretaria de Estado do Planejamento de Santa Catarina (Seplan-SC) apontou ainda que a população ocupada superou 4,5 milhões de pessoas no primeiro trimestre de 2026.
Os números ajudam a evitar uma interpretação equivocada comum em análises sobre desemprego. Uma taxa reduzida pode, em determinadas situações, estar associada à saída de pessoas da força de trabalho. No caso catarinense, porém, o desemprego baixo aparece acompanhado de nível de ocupação elevado e reduzida subutilização.
RENDIMENTO MÉDIO CHEGA A R$ 4.289
O rendimento médio mensal habitualmente recebido em todos os trabalhos chegou a R$ 4.289 em Santa Catarina no primeiro trimestre de 2026.
O valor foi o quarto maior entre os estados e ficou 15,2% acima da média nacional, de R$ 3.722 no mesmo período. Na comparação com o primeiro trimestre de 2025, houve crescimento real de 3,2%, já descontada a inflação.
O rendimento médio da PNAD Contínua não deve ser confundido com o salário de admissão dos empregos formais. O primeiro considera o rendimento declarado pelas pessoas ocupadas em todos os tipos de trabalho, incluindo empregados formais, informais, trabalhadores por conta própria, empregadores e servidores públicos.
Já o salário de admissão, calculado a partir do Novo Caged, considera exclusivamente os vínculos formais iniciados no período. Segundo um informativo da Seplan-SC sobre o salário médio de admissão, os novos vínculos catarinenses registraram média de R$ 2.285,64 no primeiro trimestre de 2025.
INDÚSTRIA E SERVIÇOS PUXARAM A OCUPAÇÃO
A estrutura econômica diversificada ajuda a explicar a capacidade catarinense de gerar e manter postos de trabalho. O estado reúne indústria de transformação, construção, serviços, comércio, agropecuária, tecnologia, turismo, portos e atividades ligadas à economia do mar.
Na comparação entre o primeiro trimestre de 2025 e o mesmo período de 2026, a população ocupada na agropecuária cresceu 14,5%. Na indústria geral, a expansão foi de 5,4%, enquanto a indústria de transformação avançou 4,2%.
A construção também registrou crescimento de 5,4% no número de ocupados. Nas atividades de informação, finanças, imóveis, serviços profissionais e administrativos, a alta chegou a 6,6%.
Os dados da PNAD Contínua medem pessoas ocupadas em todas as formas de trabalho. Já o Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged), mantido pelo Ministério do Trabalho e Emprego, registra admissões e desligamentos de vínculos formais.
Por isso, as duas bases são complementares, mas não podem ser tratadas como se medissem o mesmo fenômeno.
QUASE 60 MIL VÍNCULOS DE EMPREGO FORMAL FORAM CRIADAS NO PRIMEIRO TRIMESTRE DE 2026
Santa Catarina criou aproximadamente 59,4 mil vínculos formais no primeiro trimestre de 2026. A indústria respondeu por 32,4 mil vagas, enquanto os serviços geraram 23,6 mil, confome dados do Observatório da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc).
No acumulado de janeiro a maio, foram criadas 61.658 vagas formais, o terceiro maior saldo absoluto entre os estados. O estoque de empregos cresceu 2,4%, acima dos 1,63% registrados no Brasil e dos 1,88% observados na Região Sul.
Joinville liderou a abertura de vagas entre os municípios catarinenses, com 7.208 postos. Itajaí, Blumenau e Chapecó também apareceram entre os principais geradores de emprego formal.
Os resultados municipais, porém, representam saldos de vínculos formais e não taxas locais de desemprego. A PNAD Contínua não produz estimativas conjunturais de desocupação para todos os municípios catarinenses.
BAIXO DESEMPREGO PODE AMPLIAR ESCASSEZ DE TRABALHADORES
Quando a taxa de desemprego, a subutilização e o desalento permanecem em patamares muito baixos, empresas podem encontrar mais dificuldade para contratar profissionais com o perfil necessário.
Esse cenário pode estimular aumentos salariais, investimentos em qualificação, automação de atividades e atração de trabalhadores de outras regiões. Também pode limitar a expansão de empresas que não conseguem preencher vagas.
Santa Catarina tem sido um dos principais destinos de migração interna do país. O painel SC em Territórios, desenvolvido pela Seplan-SC com base no Censo Demográfico de 2022, identifica o estado como líder nacional em saldo migratório.
Cidades como Florianópolis, Joinville, Blumenau e Chapecó funcionam como polos de atração. A chegada de novos moradores pode ampliar a oferta de mão de obra e o mercado consumidor, mas também eleva a pressão sobre habitação, transporte, saúde, educação e infraestrutura urbana.
QUALIFICAÇÃO E PRIMEIRO EMPREGO CONTINUAM ENTRE OS DESAFIOS
O baixo desemprego médio não significa que todos os grupos encontrem oportunidades com a mesma facilidade. Os dados estaduais mais recentes divulgados em releases públicos não apresentam todos os cruzamentos de desemprego por sexo, idade, raça e escolaridade. Para obter estimativas específicas de Santa Catarina, é necessário consultar o Sistema IBGE de Recuperação Automática (SIDRA) ou processar os microdados da pesquisa com os pesos amostrais adequados.
Os indicadores nacionais mostram que jovens, mulheres, pessoas pretas e pardas e trabalhadores com ensino médio incompleto continuam enfrentando taxas de desemprego superiores à média. Esses resultados não podem ser automaticamente aplicados a Santa Catarina, mas indicam recortes que precisam ser aprofundados no estado.
Uma evidência disponível é o crescimento dos contratos de aprendizagem. Segundo o levantamento sobre as vagas para jovens aprendizes em Santa Catarina, o estoque chegou a 39.509 vínculos em 2025.
O dado mostra expansão de uma das principais portas de entrada protegida no mercado formal, mas não substitui uma taxa estadual de desemprego juvenil.
RESULTADO CATARINENSE EXIGE LEITURA ALÉM DO RANKING
Santa Catarina entrou em 2026 com o menor desemprego, a menor subutilização, a menor informalidade e o menor desalento do Brasil. O estado também apresentou alta formalização, nível elevado de ocupação e rendimento superior à média nacional.
O conjunto dos indicadores mostra que o desempenho catarinense é mais consistente do que uma leitura baseada exclusivamente na taxa de 2,7%.
A informalidade, apesar de ser a menor do país, ainda alcança aproximadamente um quarto da população ocupada. Também permanecem lacunas sobre desemprego juvenil, diferenças por gênero e raça, qualidade das vagas, rotatividade e desigualdades entre as regiões catarinenses.
O cenário, portanto, combina indicadores historicamente positivos com desafios que exigem acompanhamento. Mais do que afirmar que Santa Catarina “não tem desemprego”, os dados mostram um mercado de trabalho fortemente ocupado e formalizado, mas que começa a enfrentar os limites e as pressões típicas de uma economia próxima do pleno emprego.
