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A Corrida dos Bichos e a Distopia Jeca do Cinema de Ficção-Científica Milionária no Brasil

O paradoxo de Corrida dos Bichos como espelho da elite econômica do cinema brasileiro traz várias reflexões sobre linguagem e colonialismo estético

Corrida dos Bichos talvez seja um dos exemplos mais evidentes de um cinema brasileiro que imagina o futuro sem conseguir imaginar uma linguagem própria para ele. A distopia poderia produzir ruptura, invenção, estranhamento. Aqui, o futuro parece seguir um manual estético já conhecido: Hollywood como horizonte de acabamento, referência e validação.

A questão fica ainda mais incômoda porque o filme quer falar justamente de uma sociedade organizada pela concentração de poder, pelo espetáculo e pela transformação da pobreza em entretenimento. É jeca em vários níveis: na estética, na representação da elite, na ideia de futuro e na própria relação de uma megaprodução brasileira com aquilo que imagina ser necessário para parecer internacional.

Existe uma ironia maior: o test run original, realizado pelo autor da ideia praticamente sem orçamento, parece muito mais promissor do que a superprodução que veio depois. Talvez esteja aí uma das imagens mais precisas do cinema brasileiro contemporâneo: temos dinheiro para produzir o futuro, mas ainda importamos a aparência de como ele deve ser.

A ficção científica brasileira encontra uma dificuldade particular diante de uma realidade que já oferece desigualdade social, violência, concentração de renda, colapso urbano e transformação da vida em mercadoria em proporções capazes de desafiar qualquer imaginação distópica. O presente brasileiro frequentemente fornece situações que parecem pertencer a um futuro absurdo.

Corrida dos Bichos, de Fernando Meirelles, produz uma ironia particularmente incômoda a partir dessa condição. O filme imagina um futuro em que pessoas pobres são colocadas para disputar uma corrida mortal enquanto uma elite acompanha, aposta e transforma aquela violência em espetáculo. A divisão de classes organiza a própria premissa. A questão está em perceber como essa divisão encontra outra forma de existência na estrutura de produção do cinema brasileiro.

O filme recebeu uma escala considerável de produção para construir esse futuro. Cenários, efeitos, drones, perseguições, multidões, destruição e uma complexa engenharia visual procuram produzir uma ficção científica brasileira com aparência de grande produção internacional. O production value ocupa um lugar central na construção da obra.

A premissa oferecia uma oportunidade muito maior para investigar as relações de classe. Pessoas pobres colocadas para correr por dinheiro diante de uma audiência que aposta nelas poderiam abrir uma investigação sobre quem controla o espetáculo, quem controla a mídia, quem controla o dinheiro e quais mecanismos fazem uma sociedade aceitar a transformação da vida de determinados grupos em entretenimento.

A estrutura social existe para sustentar a corrida. A corrida ocupa o espaço necessário para sustentar a estrutura do filme. A ação precisa continuar, os personagens precisam cumprir suas funções e o espetáculo precisa avançar. A sociedade imaginada acaba funcionando principalmente como cenário para uma narrativa de ação.

Essa escolha pesa especialmente em uma ficção científica brasileira porque o país já oferece as contradições que o filme precisa transportar para o futuro. A violência transformada em conteúdo, a economia das apostas, a celebridade como instrumento de influência, a desigualdade urbana e a exploração da pobreza fazem parte da experiência social brasileira. O cinema poderia partir dessas estruturas e conduzi-las para um território ainda desconhecido.

O jogo do bicho aparece como um atalho para o Brasil. Estão ali a aposta, o dinheiro, a ilegalidade incorporada à cultura popular e as relações entre território e poder. O signo é imediatamente reconhecível e ajuda a localizar a distopia.

A estrutura de poder apresentada pelo filme possui outra relação com o território. A elite que controla o espetáculo poderia pertencer a praticamente qualquer distopia produzida pela indústria audiovisual global. Falta compreender a formação daquela classe, suas relações econômicas, sua origem e os mecanismos concretos que permitem seu domínio sobre aquele sistema.

O jogo do bicho fica brasileiro. A estrutura de poder poderia estar em qualquer lugar.

Essa distância pesa porque o filme fala sobre concentração de poder. Quem controla os meios de produção daquele mundo? Quem controla a mídia? Quem transforma a violência em negócio? Quem decide quais corpos serão colocados diante das câmeras?

A ausência dessas relações concretas faz a luta de classes aparecer como situação narrativa pronta, enquanto a própria classe dominante permanece relativamente abstrata.

É possível reconhecer naquela representação uma caricatura de elite que dialoga com personagens conhecidos do imaginário midiático brasileiro, inclusive com uma certa tradição de apresentadores, empresários e celebridades que transformam entretenimento, influência e poder econômico em uma mesma linguagem pública. O universo de Luciano Huck surge como uma referência possível para essa persona de elite midiática brasileira.

A presença de Anitta em cena acrescenta outra camada. A artista entra na ficção carregando consigo uma imagem pública reconhecível, construída pela indústria cultural, pela publicidade, pelas plataformas digitais e pelo mercado internacional. Sua presença produz curto-circuito em que a celebridade continua sendo celebridade dentro da ficção. O espectador reconhece a figura pública antes de reconhecer a personagem.

Esse circuito remete ao seriado de zumbis protagonizado por Sabrina Sato, em que a presença da celebridade também cria uma relação direta entre a figura pública e o universo ficcional. A celebridade passa a funcionar como parte do próprio aparato de produção. Sua imagem já possui valor econômico, circulação e reconhecimento suficientes para ser incorporada à construção do espetáculo. Naquele seriado de zumbi, Sabrina Sato aparece maquiada na sala para as visitas verem. É colonizado até no figurativo.

Em Corrida dos Bichos, essa escolha fica ainda mais estranha porque a personagem de Anitta aparece em um universo que pretende apresentar um futuro brutal, degradado e socialmente colapsado, enquanto sua caracterização carrega uma aparência cuidadosamente produzida, para ser vista bem produzida. Sua persona é sua máscara maquiada, sem espelho sobre a sua presença no mercado de entretenimento na qual se pretende protagonista mulher, negra, brasileira, independente.

Muito jeca nessa imagem.

A sensação produzida é a de uma produção que parece se arrumar diante do espelho antes de receber alguém de fora. A megaprodução brasileira parece dizer ao mercado internacional: “olhem como conseguimos fazer”.

A imagem de uma personagem impecavelmente maquiada em meio à distopia funciona quase como uma metáfora involuntária da própria produção. O mundo apresentado deveria expressar ruína, violência e desigualdade. A produção parece preocupada em apresentar sua melhor roupa para quem chega de fora.

Essa relação com o mercado internacional ajuda a explicar parte do problema estético de Corrida dos Bichos. A produção parece mirar uma ideia de cinema global antes de aprofundar aquilo que poderia existir especificamente naquele futuro brasileiro. O Brasil aparece em signos reconhecíveis, como o jogo do bicho, enquanto a forma geral do espetáculo procura se adequar a um repertório internacional de ficção científica.

O filme constrói uma classe dominante que transforma a população em espetáculo enquanto sua própria realização depende de uma estrutura cultural em que o acesso aos grandes recursos permanece concentrado.

Existe uma quantidade enorme de dinheiro concentrada na produção de uma ficção científica que pretende discutir desigualdade e poder. Ao mesmo tempo, projetos ligados a grupos historicamente excluídos dos grandes circuitos continuam disputando recursos insuficientes para existir.

A 6a Semana de Cinema Negro de Belo Horizonte chegou a ser cancelada por falta de recursos. A interrupção de uma iniciativa dedicada à circulação e à afirmação de cinematografias negras convive com um mercado audiovisual capaz de mobilizar milhões de reais para determinadas produções. A diferença revela uma política de distribuição de recursos e também uma política de produção de imagens.

O problema alcança o próprio discurso sobre diversidade dentro do audiovisual. Setores que defendem publicamente democratização cultural, diversidade e ampliação dos recursos para a cultura também ocupam posições privilegiadas dentro de uma estrutura na qual as condições materiais de produção permanecem altamente concentradas.

A defesa da diversidade pode conviver com a concentração dos meios necessários para produzir e distribuir as imagens dessa diversidade? Será este filme a maior revelação de uma “lucianohuckzação” do futuro do audiovisual brasileiro? Ou uma pista de que a elite econômica vai sempre dar as cartas no imaginário?

Caberia aqui um trocadilho com jogo do bicho, mas vamos focar no espetáculo da distopia:

A obra coloca uma elite diante de uma população transformada em espetáculo. Fora da tela, podemos observar quem conseguiu reunir os recursos necessários para construir aquela imagem, quais produtores conseguem operar nessa escala e quais realizadores continuam encontrando obstáculos para transformar seus próprios projetos em obras com condições semelhantes de produção e circulação.

Escala de produção e qualidade narrativa pertencem a campos diferentes. Uma produção pode reunir tecnologia, dinheiro, efeitos e profissionais de primeira linha e ainda assim construir uma narrativa que subestima a inteligência do espectador.

Existe uma concentração extraordinária de recursos para produzir uma narrativa que, na minha leitura, oferece pouco em troca dessa escala. O filme pretende representar uma sociedade em que a mídia transforma a população em espetáculo e acaba construindo sua própria crítica social dentro da lógica do espetáculo.

A realidade brasileira já oferece o problema. A ficção científica precisa encontrar uma forma de imaginar.

O afrofuturismo, mais ainda. Que passa longe dessa jocosidade que é Corrida dos Bichos. Que filme de merda meu deus.

Quando o production value ocupa o lugar da elaboração narrativa, a escala deixa de ampliar as possibilidades do filme e passa a limitar aquilo que ele pretende imaginar.

E é mais irônico ainda quando se olha para a origem da própria ideia.

Antes da superprodução de Fernando Meirelles, o autor original da ideia realizou um curta-metragem como test run. O filme foi produzido em condições precárias, praticamente sem orçamento.

Assista ao *test run* original de *Corrida dos Bichos*

Muito mais legal com a precariedade.

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