segunda-feira, 7 setembro , 2026
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Florianópolis é a cidade mais criativa do Brasil. Quem disse? Uma IA que gera imagens

Prefeitura de Florianópolis divulga ranking de ferramenta de IA generativa para justificar política cultural sem indicadores públicos, sem transparência metodológica e sem diagnóstico real do setor

por Pedro MC
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Sei que é difícil a leitura hoje em dia. Quero afirmar aqui que sim, Florianópolis é uma cidade criativa. Mas como produtor cultural, empresário de cinema, trabalhador da cultura daqui da capital catarinense, no qual já estive no Conselho Municipal de Políticas Culturais, devo dizer que esta manchete da Adobe Firefly ter pesquisado algumas cidades e colocado Florianópolis no topo de indicadores pode ser uma fraude de pesquisa.

A Adobe Firefly é uma IA generativa de imagens, que comete vários erros e não é uma IA de pesquisa profunda e analítica de dados socioeconômicos.

E isso serve como uma luva para a política neoliberal da cultura em Florianópolis, que não tem sistema de indicadores do setor e por isso não investe em editais para cobrir a demanda de produção. Em vez disso, investe pesado em eventos esporádicos, em palco, em vitrine da “marca Prefeitura”.

Estimo que em 10 anos não teremos uma imagem de memória dos mais antigos, dos bairros, das pessoas de Florianópolis. Em 20 anos será uma cidade de Airbnb com palcos gigantescos.

Florianópolis foi eleita a cidade mais criativa do Brasil em 2026, segundo um índice elaborado pela própria ferramenta de inteligência artificial generativa Adobe Firefly. A capital catarinense alcançou 74,6 pontos em uma escala de 0 a 100 e foi a única das 50 cidades brasileiras analisadas a superar a marca dos 70 pontos.

A Adobe Firefly é uma família de modelos de IA generativa que cria imagens, texto, vídeo e áudio a partir de prompts. Não é uma empresa de pesquisa, não é um instituto de estatística, não é um órgão público de diagnóstico territorial. Sua função principal é gerar conteúdo criativo, não analisar dados socioeconômicos com rigor metodológico.

O ranking considera 22 indicadores relacionados a negócios e empregos criativos, infraestrutura cultural, artes e entretenimento, satisfação dos visitantes e preços de atividades culturais. Segundo a VEJA, os dados foram coletados em julho de 2026 em plataformas como Google Maps, TripAdvisor, Glassdoor e Street Art Cities.

A Adobe Firefly analisa a quantidade de reviews no Google Maps? Cruza dados do IBGE? Verifica em campo a existência real dos equipamentos culturais? Pesa indicadores de distribuição territorial, condições de trabalho, permanência das atividades ou geração de renda?

Nada disso está público. Não há white paper com metodologia completa, não há acesso às bases de dados brutas, não há transparência sobre pesos, normalização ou tratamento estatístico.

Essa opacidade serve como uma luva para a política neoliberal que desconsidera sistemas de indicadores públicos e abertos à consulta. Em vez de produzir dados próprios para orientar a política cultural, a prefeitura se apoia em ranking privado, de metodologia inacessível, elaborado por uma ferramenta cuja função original é criar imagens com IA.

Enquanto isso, o município não dispõe de um sistema público equivalente para saber quem produz cultura, onde produz, quais projetos ficam de fora dos editais, quais territórios recebem recursos e quais atividades desaparecem por falta de financiamento.

A criatividade como vitrine

Florianópolis possui empresas, profissionais, coletivos, universidades, equipamentos culturais, laboratórios de inovação e uma produção artística permanente. Esse ecossistema deveria produzir conhecimento para orientar a própria política pública.

Quantas empresas e coletivos procuram apoio público todos os anos? Quantos projetos são apresentados e ficam fora dos editais? Quais bairros concentram a produção cultural? Quais territórios recebem recursos? Quais linguagens possuem financiamento regular? Quantos profissionais conseguem viver de sua atividade? Quantas iniciativas desaparecem depois de uma única edição?

Essas perguntas exigem dados públicos e acompanhamento contínuo. Sem esse diagnóstico, a administração trabalha sobre percepção, pressão política e capacidade de articulação de cada grupo.

A ausência de indicadores também impede avaliar a própria política cultural. Fica impossível medir distribuição territorial, formação de público, diversidade de linguagens, permanência das atividades, geração de trabalho e renda ou impacto dos investimentos.

A cidade passa a medir aquilo que aparece no palco.

A cultura como contrato

A concentração da política cultural em grandes eventos produz uma forma específica de gestão. O poder público contrata estruturas prontas, define calendários, entrega recursos e contabiliza público, atrações e repercussão.

Esse modelo possui eficiência administrativa para produzir eventos. A política cultural exige outra camada de planejamento: formação, continuidade, memória, pesquisa, circulação, preservação, ocupação territorial e criação de público.

Um grande evento pode reunir milhares de pessoas durante alguns dias. Um edital de pequeno porte pode financiar uma pesquisa de memória durante um ano, uma oficina audiovisual em um bairro, a digitalização de um acervo comunitário, a manutenção de um cineclube ou a produção de um curta-metragem.

Cada modalidade possui uma função pública distinta. A política cultural precisa organizar essas funções dentro de um sistema.

A cultura passa a ser tratada como contrato quando o evento se torna a unidade principal de planejamento. O cidadão aparece como público consumidor. O território aparece como local de realização. O produtor aparece como executor. A continuidade desaparece.

Economia criativa para quem?

O discurso sobre economia criativa precisa enfrentar o custo de viver em Florianópolis.

O aluguel médio chegou a R$ 60,84 por metro quadrado em julho de 2026, colocando a cidade entre as capitais brasileiras com os valores mais elevados, atrás apenas de São Paulo, Recife e Belém.

A cesta básica chegou a R$ 860,73, a terceira mais cara do país, atrás apenas de São Paulo e Cuiabá.

Esse contexto interfere diretamente na produção cultural. Artistas, técnicos, produtores, pesquisadores e trabalhadores da economia criativa precisam morar, circular, ensaiar, produzir, armazenar equipamentos e acessar espaços de trabalho.

Uma política de economia criativa que ignora o custo de permanência dos trabalhadores no território cria um ecossistema voltado para quem já possui patrimônio, renda e infraestrutura própria.

A dimensão social da criatividade precisa entrar na equação. A produção cultural de Florianópolis também nasce nos morros, no Maciço do Morro da Cruz, no continente, nas comunidades pesqueiras, nos bairros populares, nas periferias e nos coletivos que trabalham com poucos recursos.

Esses territórios produzem cultura todos os dias. A política pública precisa enxergar essa produção antes que ela desapareça.

A Maratona e o fundo municipal cambaleante

A Maratona Cultural possui uma curadoria de qualidade e uma capacidade importante de mobilização. A arquitetura da política cultural que existe ao redor dela precisa ser discutida.

Florianópolis possui um Fundo Municipal de Cultura que deveria funcionar como instrumento permanente de financiamento. O setor encontra dificuldade para acessar editais regulares, previsíveis e capazes de contemplar projetos de diferentes escalas.

A própria lógica tecnológica revela uma contradição. Grandes eventos conseguem operar sistemas de inscrição, comunicação, produção e prestação de contas com estruturas complexas. A política cotidiana de financiamento cultural deveria possuir a mesma capacidade institucional.

Editais precisam existir durante todo o ano, contemplando diferentes dimensões da produção: pequenos vídeos, experimentação, preservação de acervos, memória, formação, circulação, publicação, pesquisa, patrimônio imaterial e produção artística.

A cidade possui ainda uma estrutura universitária que poderia participar desse ecossistema.

As universidades como infraestrutura cultural

UDESC e UFSC concentram cursos, laboratórios, pesquisadores e equipamentos ligados a cinema, artes, design, comunicação, gastronomia, tecnologia e inovação. Essa infraestrutura acadêmica poderia estabelecer uma conexão permanente com a política cultural municipal, criando programas de pesquisa aplicada, formação, residência, extensão, desenvolvimento tecnológico e incubação de projetos culturais.

Cursos de cinema e audiovisual podem atuar em programas de memória e formação. Design pode contribuir para comunicação pública, patrimônio e acessibilidade. Gastronomia pode trabalhar com patrimônio alimentar. Arquitetura e urbanismo podem pesquisar paisagem e ocupação cultural. Tecnologia pode desenvolver plataformas de mapeamento, acervos digitais e sistemas de indicadores.

Essa estrutura já existe. O desafio político consiste em conectá-la ao planejamento cultural do município.

Uma cidade que pretende ocupar o topo de um ranking de criatividade deveria possuir uma política pública capaz de transformar sua inteligência acadêmica em infraestrutura cultural permanente.

O que desaparece com os grandes eventos

A prioridade dada aos grandes eventos desloca recursos, energia administrativa e capacidade institucional para ações de alta visibilidade.

O Plano Municipal de Cultura, alinhado ao Sistema Nacional de Cultura, já prevê instituições para indução de ações de memória. O FUNCINE, como fundo setorial, poderia financiar pesquisas audiovisuais de longo prazo. A Casa da Memória, criada em 2004, possui núcleos de história oral, pesquisa e acervo audiovisual para registrar a vida social e cultural do município.

A pergunta é: quanto de memória de Florianópolis foi registrada nos últimos dez anos que não seja aftermovie de evento como a Maratona Cultural?

O FUNCINE, mais antigo fundo municipal de cinema do país com atividade ininterrupta, financiou 94 projetos audiovisuais desde sua criação. A maioria das edições do Edital Armando Carreirão privilegia produção de ficção, curta-metragem e mostras, deixando espaço reduzido para programas sistemáticos de registro de memória comunitária.

A Casa da Memória mantém projetos como Memória dos Bairros e Cidade Contada, porém opera com equipe reduzida, horário limitado e recursos insuficientes para ampliar o registro para comunidades pesqueiras, mestres de ofícios e saberes ancestrais dos morros e do continente.

Florianópolis possui comunidades pesqueiras, mestres de ofícios, pesquisadores locais, artistas populares, antigos trabalhadores do território e moradores que carregam conhecimentos transmitidos entre gerações.

Falta incentivo específico para o registro audiovisual dos mais velhos que mantêm esses saberes. Pescadores antigos, mestres de ofícios, contadores de história e artistas populares ainda estão vivos e poderiam ser documentados em programas sistemáticos de história oral, vídeo e áudio.

Daqui a vinte anos não teremos imagens, áudios ou registros da velha guarda que hoje mantém vivos os saberes ancestrais. Os pescadores antigos, os folguedos, as histórias de bairro, os ofícios tradicionais e os conhecimentos transmitidos oralmente podem ficar restritos aos arquivos pessoais de moradores, às fotografias familiares e aos vídeos dispersos em plataformas privadas como TikTok e Instagram.

Daqui a vinte anos, os bairros que hoje abrigam essas memórias poderão estar ocupados por empreendimentos imobiliários e imóveis destinados ao aluguel de temporada. A gentrificação apaga pessoas, histórias, saberes e territórios de vida.

A memória pública precisa possuir instituições, metodologia, orçamento e acesso.

Soluções conhecidas há décadas

Florianópolis já possui experiências históricas de descentralização cultural, formação de público e ocupação de equipamentos públicos.

Escolas podem funcionar como circuitos culturais. Centros comunitários podem receber oficinas e apresentações. Bibliotecas podem operar como espaços de produção. Equipamentos municipais podem estabelecer redes de circulação entre bairros.

O Maciço do Morro da Cruz, Chico Mendes, Monte Cristo, comunidades do continente e outros territórios populares podem receber programas continuados de audiovisual, música, artes visuais, literatura, memória e patrimônio.

A política de base precisa possuir calendário, orçamento, equipe e avaliação.

Essa tecnologia política já existe. O problema está na decisão de utilizá-la.

O plano municipal como prova de coerência

Florianópolis possui uma história de planejamento cultural que precisa ser recuperada. O município já construiu um Plano Municipal de Cultura com diretrizes e metas para o setor.

A discussão sobre um novo plano exige primeiro uma avaliação pública do anterior.

Quais metas foram cumpridas? Quais foram abandonadas? Quanto dinheiro foi destinado? Quais equipamentos foram fortalecidos? Quais programas permaneceram? Quais indicadores foram produzidos?

Um novo plano precisa partir dessa prestação de contas.

A participação social ganha sentido quando produz consequência administrativa. Conselhos, fóruns, conferências e consultas públicas precisam resultar em orçamento, programas, editais e metas verificáveis.

Planejamento cultural sem execução transforma participação em procedimento.

Uma cidade criativa precisa conhecer sua própria cultura

Florianópolis possui condições concretas para construir uma política cultural de referência.

A cidade possui universidades, empresas de tecnologia, artistas, produtores, equipamentos culturais, patrimônio material e imaterial, comunidades tradicionais, setor gastronômico, indústria audiovisual, laboratórios de inovação e uma população com intensa capacidade de produção cultural.

Esse patrimônio humano precisa entrar na política pública como infraestrutura estratégica.

Um sistema municipal de indicadores permitiria acompanhar orçamento, equipes, equipamentos, demanda, prazos de análise, projetos inscritos, projetos contemplados, valores distribuídos, cobertura territorial, diversidade de linguagens, formação de público, geração de trabalho e renda e permanência das iniciativas.

Esses dados permitiriam identificar onde o dinheiro público chega e onde ele deixa de chegar.

A criatividade precisa funcionar como atributo estatístico da cidade e como princípio de sua administração cultural.

Florianópolis pode construir uma política cultural capaz de articular grandes eventos, pequenos produtores, universidades, bairros, patrimônio, inovação e economia criativa.

A Maratona Cultural pode continuar existindo com sua força de programação e mobilização. O município precisa construir ao redor dela uma política permanente que alcance aquilo que três dias de evento jamais conseguem alcançar.

A cidade mais criativa do Brasil precisa conhecer quem cria, onde cria, com quais recursos cria e quais condições permitem que continue criando.

Essa seria uma verdadeira política de criatividade.

A cultura precisa ocupar o orçamento, o planejamento e o território.


Referências

Ranking de cidade criativa:

Adobe Firefly (ferramenta de IA generativa):

Aluguel R$ 60,84/m²:

Cesta básica R$ 860,73:

Casa da Memória:

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