A imagem de um boneco gigante de Donald Trump segurando Lula vestido de presidiário deveria nos assustar.
Em pleno 7 de Setembro, Dia da Independência do Brasil, um ato político de Flávio Bolsonaro na Avenida Paulista transforma o presidente dos Estados Unidos em uma figura gigantesca, poderosa, quase soberana, enquanto representa o presidente eleito do Brasil pequeno, subjugado e criminalizado.
Pense por alguns segundos no tamanho dessa contradição.
É possível ser oposição a Lula. É possível criticar seu governo, disputar eleições e defender outro projeto para o país. Isso faz parte da democracia.
O que me assusta é outra coisa: quando derrotar o adversário político se torna mais importante do que defender a soberania do próprio país.
Trump não é um personagem neutro nessa história. É o presidente de outra nação, com seus próprios interesses econômicos, políticos e geopolíticos. Colocá-lo literalmente acima do presidente brasileiro, justamente numa celebração da independência nacional, diz muito mais do que talvez seus próprios autores percebam.
A imagem parece condensar uma ideia profundamente perigosa: a de que a interferência de uma potência estrangeira sobre o Brasil pode ser desejável desde que ela ajude a derrotar o adversário político interno.
E há ainda outra camada que considero igualmente perigosa: a transformação do adversário político em alguém que precisa ser humilhado, encarcerado, eliminado simbolicamente do espaço democrático. Quando o outro deixa de ser adversário e passa a ser tratado apenas como inimigo ou criminoso, a própria ideia de convivência democrática começa a se deteriorar.
Não quero um Brasil no qual todos pensem como eu. Quero um Brasil no qual possamos disputar profundamente nossas ideias sobre o futuro sem abrir mão da democracia, da soberania e do direito do outro de existir politicamente.
Talvez por isso essa seja, para mim, uma das imagens mais perturbadoras deste 7 de Setembro.
Porque, às vezes, uma imagem revela uma visão de mundo inteira.