quinta-feira, 10 setembro , 2026
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Boneco de Trump em ato bolsonarista expõe a contradição de celebrar a independência brasileira exaltando o poder de um presidente estrangeiro

por Francine Canto Boico
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A imagem de um boneco gigante de Donald Trump segurando Lula vestido de presidiário deveria nos assustar.

Em pleno 7 de Setembro, Dia da Independência do Brasil, um ato político de Flávio Bolsonaro na Avenida Paulista transforma o presidente dos Estados Unidos em uma figura gigantesca, poderosa, quase soberana, enquanto representa o presidente eleito do Brasil pequeno, subjugado e criminalizado.

Pense por alguns segundos no tamanho dessa contradição.

É possível ser oposição a Lula. É possível criticar seu governo, disputar eleições e defender outro projeto para o país. Isso faz parte da democracia.

O que me assusta é outra coisa: quando derrotar o adversário político se torna mais importante do que defender a soberania do próprio país.

Trump não é um personagem neutro nessa história. É o presidente de outra nação, com seus próprios interesses econômicos, políticos e geopolíticos. Colocá-lo literalmente acima do presidente brasileiro, justamente numa celebração da independência nacional, diz muito mais do que talvez seus próprios autores percebam.

A imagem parece condensar uma ideia profundamente perigosa: a de que a interferência de uma potência estrangeira sobre o Brasil pode ser desejável desde que ela ajude a derrotar o adversário político interno.

E há ainda outra camada que considero igualmente perigosa: a transformação do adversário político em alguém que precisa ser humilhado, encarcerado, eliminado simbolicamente do espaço democrático. Quando o outro deixa de ser adversário e passa a ser tratado apenas como inimigo ou criminoso, a própria ideia de convivência democrática começa a se deteriorar.

Não quero um Brasil no qual todos pensem como eu. Quero um Brasil no qual possamos disputar profundamente nossas ideias sobre o futuro sem abrir mão da democracia, da soberania e do direito do outro de existir politicamente.

Talvez por isso essa seja, para mim, uma das imagens mais perturbadoras deste 7 de Setembro.

Porque, às vezes, uma imagem revela uma visão de mundo inteira.

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