Docente da UFSC analisa o bolsonarismo como expressão do neofascismo brasileiro e defende o enfrentamento das estruturas sociais, políticas e culturais que sustentam o movimento.
O que significa desbolsonarizar o Brasil? Para o historiador e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Jéferson Dantas, a questão vai muito além das disputas eleitorais. Em artigo de opinião intitulado “Derrotar o cancro bolsonarista!”, o pesquisador apresenta uma análise crítica do bolsonarismo, relacionando o movimento ao autoritarismo, ao negacionismo científico, à disseminação da desinformação e à reprodução de preconceitos e desigualdades históricas da sociedade brasileira.
Ao longo do texto, Dantas aborda temas como a atuação do governo Jair Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19, o crescimento de grupos neonazistas, especialmente em Santa Catarina, a influência do fundamentalismo religioso na política e o papel da mídia tradicional na cobertura do bolsonarismo. O professor também discute a presença de práticas autoritárias nas instituições públicas e os impactos da violência política sobre populações socialmente vulneráveis.
Na avaliação do historiador, enfrentar o bolsonarismo exige mais do que derrotar seus representantes nas urnas. É necessário compreender as condições históricas, econômicas e culturais que favorecem sua permanência na sociedade brasileira e enfrentar a disseminação do ódio, da intolerância e da desinformação.
O artigo, originalmente publicado em abril de 2022 no ObjETHOS, Observatório da Ética Jornalística vinculado ao Curso de Jornalismo da UFSC, foi atualizado pelo autor e propõe uma reflexão sobre os desafios da democracia brasileira.
Confira, a seguir, o artigo de opinião de Jéferson Dantas, publicado na íntegra.
DERROTAR O CANCRO BOLSONARISTA!1
Deixar o erro sem refutação
é estimular a imoralidade intelectual
(Karl Marx).
Artigo de opinião por Jéferson Dantas2
O bolsonarismo nada mais é do que o neofascismo à brasileira. O/a bolsonarista (sim, há mulheres que oprimem outras mulheres e conquistam centenas de milhares de votos nos pleitos parlamentares em defesa da submissão feminina e do primado do patriarcado) despreza mulheres (misoginia), minorias sexuais (homo/transfobias), imigrantes de outras nacionalidades (xenofobia), além do acerado racismo e violência de classe; os/as bolsonaristas ignoram a ciência e, portanto, o conhecimento sistematizado produzido ao longo do tempo pela humanidade. A (ir)racionalidade ou o senso comum bolsonarista está tão saturado no Brasil, que nos parece difícil a reversão de suas falsas premissas num curtoprazismo diante da trágica realidade social existente, realidade essa que brada os horrores da concentração de renda, do rebaixamento intelectual e da desinformação em larga escala, além da degradação humana nas ruas das grandes e médias cidades (temos mais de 400 mil moradores/as de rua no Brasil), da fome e da manipulação sistêmica da memória social.
A tática da familícia et caterva é bastante conhecida. Perseguem e criminalizam jornalistas independentes, incluindo os que representam a mídia corporativa hegemônica; entregam o patrimônio público e desdenham da soberania nacional, vide o viralatismo em relação ao imperalismo estadunidense; as frações de classe bolsonaristas destroem biomas ambientais e cometem diversos crimes de lesa-pátria e de lesa-humanidade, sendo o mais emblemático aquele que ceifou a vida de centenas de milhares de brasileiros/as durante o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022) devido às práticas delituosas antivacina e anticiência – e com a acedência de representantes do Conselho Federal de Medicina e dos proprietários dos Planos de Saúde –, denunciadas de forma conclusiva e consistente pela CPI da Covid-19. Contudo, não foi o Relatório final da CPI da Covid-19 que levou o capitão reformado do exército para a cadeia, mas a tentativa frustrada de um golpe de Estado em 2023.
No que diz respeito aos delírios bolsonaristas, típicos de facções religiosas e, portanto, eivados de misticismos transcendentes e sem qualquer comprovação/validade epistemológica, concordamos com o historiador britânico E.P. Thompson que nos diz: “A diferença entre uma disciplina intelectual e uma formação meramente ideológica (teologia, astrologia, certas partes da sociologia burguesa e do marxismo stalinista ortodoxo) está exatamente nesses procedimentos e controles; pois se o objetivo do conhecimento consistisse apenas de ‘fatos’ ideológicos elaborados pelos próprios procedimentos dessa disciplina, então não haveria nunca uma maneira de confirmar ou refutar qualquer proposição; não poderia haver um tribunal de recursos científicos ou disciplinas”.
O alerta de Thompson serve tanto para os/as bolsonaristas/neopentecostais da teologia do domínio quanto para a mídia corporativa hegemônica, que age como se fosse um partido ou sujeito coletivo, reproduzindo ad nauseam pautas contrárias à classe trabalhadora e, por isso mesmo, incapaz de se ruborizar no tribunal da História. Os grupos empresariais jornalísticos parecem apostar no acaso ou na providência divina, não lidam de forma aprofundada sobre temas macroeconômicos, pois isso mobiliza questões estruturais, colocando em xeque a lógica do mercado e o modus operandi capitalista. Pode-se dizer, categoricamente, que a mídia hegemônica poupou o governo Bolsonaro, nunca o submetendo a constrangimentos efetivos ou contribuindo imparcialmente para a aniquilação dos crimes de responsabilidade realizados ao longo dos quatro anos de seu desgoverno. O espírito golpista da mídia hegemônica tradicional não é novidade e num ano eleitoral isso fica muito mais evidente. Os editoriais dos jornalões, especialmente do eixo Rio-São Paulo, continuam apostando numa Terceira Via, que se mostrou mais uma vez liquefeita e desarticulada. Não se trata de binarismos ou de maniqueísmos rasteiros, mas o efeito de halo das mídias tradicionais continua sendo o mesmo do golpe de 2016 e do ambiente eleitoral de 2018.
Desbolsonarizar o Brasil significa, portanto, combater a política do ódio, do medo e a violência sem freios do aparato repressor estatal – polícias civil, militar e federal, Forças Armadas, além de milicianos infiltrados nessas forças oficiais de repressão – já que boa parte dos fardados apoia a familícia. Durante o governo Bolsobaro tivemos no Brasil o aumento significativo da violência física e psicológica (mais de 200%) contra jovens negros, mulheres e a comunidade LGBTQIA+, além do surgimento de dezenas de grupos neonazistas com mais de 500 células espalhadas pelo país (só em Santa Catarina são mais de 300 células), congregando em torno de 10 mil integrantes. Não por acaso, a região sul do Brasil foi a que mais votou no filho 01 de Bolsonaro no primeiro turno das eleições presidenciais de 2026.
Este adesismo à (ir)racionalidade bolsonarista tem conexão direta com a história colonial desse país, ou seja, eleitores/as bolsonaristas não são afeitos aos estudos sistemáticos (se puderem, compram títulos de graduação e de pós-graduação) e refestelam-se em cargos públicos por indicação. O clientelismo/aparelhamento bolsonarista promoveu um verdadeiro desastre em ministérios e secretarias, pois via de regra são ineptos, arrogantes, prepotentes, assediadores e despreparados, tecnicamente. A desbolsonarização não só é necessária como basilar num país que pode caminhar a largas passadas para a barbárie e a uma crise civilizatória sem precedentes, o que provocaria o aprofundamento das desigualdades sociais e um processo de dessensibilização/alienação/inação jamais vistos.
Como bem sintetiza a epígrafe desse texto, não há mais tempo para erros históricos ou para a inércia coletiva. Afinal, os fascistas/arrivistas das redes sociais (promotores das fake news) saíram do armário há muito tempo e não querem mais se esconder! Estão em todos os lugares – e armados, com a facilitação do porte de armas durante a presidência do capitão reformado! Assim sendo, a imolação exercida cruel e pervertidamente pelo governo Bolsonaro e a horda bolsonarista contra a população mais vulnerável não pode mais acontecer, pois o custo social foi avassalador! A luta é contra um cancro, uma doença crônica que assola os/as que ainda se importam com o Brasil!
1 Este texto opinativo sofreu algumas modificações em relação ao texto original publicado em abril de 2022 no site do ObjETHOS (Observatório da Ética Jornalística), vinculado ao Curso de Jornalismo da UFSC.

2 Historiador e Doutor em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Jéferson Silveira Dantas, Bacharel Licenciado em História, Historiador (Registro Profissional 0000151/SC), Mestre e Doutor em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Pós-Doutor em Educação pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa (IE-ULisboa) e UDESC. Professor Associado I no Departamento de Estudos Especializados em Educação do Centro de Ciências da Educação da UFSC (EED/CED/UFSC). Membro e pesquisador do Grupo Itinera, vinculado ao Centro de Ciências da Educação da UFSC. Professor Tutor do Programa de Educação Tutorial (PET) do Curso de Graduação em Pedagogia (2022-2025).LATTES: http://lattes.cnpq.
ORCID:https://orcid.org/0000-