Impedimento do Maria Joana e Anima Queer coloca em debate os critérios que definem quais imagens chegam a uma sala de cinema pública
Antes dos pareceres da Fundação Catarinense de Cultura sobre o que pode ou não ser exibido no Cinema do CIC, existe um episódio que precisa ser registrado.
Em 2026, o Maria Joana Festival de Cinema e o Anima Queer tiveram suas realizações impedidas no Centro Integrado de Cultura. A justificativa apresentada pela instituição está documentada: os eventos “não estão de acordo com a programação do Centro Integrado de Cultura”.
Qual é a programação considerada adequada pelo CIC?
Uma programação envolve critérios, prioridades, públicos e concepções de cultura. Uma instituição cultural pode organizar mostras temáticas, definir horários, formatos, classificação indicativa, critérios técnicos e condições de uso do espaço. Essas atribuições fazem parte da administração de um equipamento público.
A expressão “não está de acordo com a programação”, porém, não informa qual regra foi aplicada. Também não esclarece se o conteúdo dos filmes foi analisado, se a curadoria dos festivais foi considerada ou se a decisão decorreu de restrição técnica, administrativa ou orçamentária.
Uma justificativa genérica produz efeitos concretos: dois eventos deixam de ocupar uma sala pública e determinados filmes deixam de chegar ao público por meio daquele equipamento.
O filtro da aceitabilidade
O controle da circulação cultural pode ocorrer por mecanismos administrativos. Ele aparece na escolha dos eventos, na análise dos projetos, nos pareceres, nos critérios de programação e na avaliação de determinadas imagens como inadequadas.
O filtro da aceitabilidade começa antes da sessão.
Um filme pode reunir qualidade técnica, relevância artística e trajetória de circulação e ainda encontrar obstáculos quando trabalha com corpos, sexualidades, religiões, drogas, violência, racismo, política ou crítica institucional. Conceitos subjetivos como “adequação”, “conveniência”, “perfil institucional” ou “programação” funcionam como instrumentos de exclusão quando substituem critérios objetivos.
Quem define o que é adequado interfere diretamente naquilo que o público poderá ver.
O Cinema do CIC integra a estrutura cultural do Estado. A Fundação Catarinense de Cultura administra o equipamento e estabelece as condições de utilização da sala. Cada decisão sobre a programação afeta a circulação de obras, artistas, debates e ideias.
O Maria Joana Festival trabalha com produções relacionadas à cannabis, saúde, ciência, política de drogas, direitos humanos e cultura. O Anima Queer concentra sua programação em obras de animação relacionadas às experiências LGBTQIA+. São recortes curatoriais definidos, com públicos, linguagens e debates próprios.
Qual característica colocou o Maria Joana fora da programação? Qual característica produziu a mesma conclusão em relação ao Anima Queer? O conteúdo dos filmes foi analisado? A curadoria dos festivais foi considerada? Existem critérios prévios para a ocupação do Cinema do CIC? Eles são aplicados uniformemente? Há mecanismos de recurso?
Essas informações devem constar dos documentos que fundamentaram os impedimentos. Sem elas, o público fica diante de uma justificativa ampla demais para ser examinada e específica demais para ser ignorada.
Diversidade e poder
A palavra diversidade aparece com frequência nas políticas culturais brasileiras. Seu sentido envolve representação, autoria, financiamento, curadoria, circulação e acesso aos espaços de decisão.
Os dados históricos do cinema brasileiro demonstram a concentração racial existente nas funções de autoria. Em levantamento da Agência Nacional do Cinema sobre longas-metragens lançados comercialmente em 2016, 97,2% dos diretores eram brancos. Apenas 2,1% eram homens negros, e nenhuma mulher negra dirigiu os filmes analisados. Na função de roteiro, 93% dos profissionais eram brancos.
Agência Nacional do Cinema — informe sobre diversidade de gênero e raça no cinema em 2016
O levantamento corresponde a um período específico. Seus números revelam uma concentração histórica nas funções responsáveis pela criação, pelo comando e pela tomada de decisões no audiovisual.
Essa concentração também precisa ser observada dentro das instituições culturais. Quem seleciona os projetos? Quem avalia os filmes? Quem escreve os pareceres? Quais experiências estéticas formam o repertório dessas pessoas? Quais concepções de público aparecem nas avaliações?
Em Santa Catarina, faltam informações públicas sistematizadas sobre a composição racial das comissões, dos conselhos e das instâncias que definem a circulação das obras nos equipamentos culturais. A ausência desses dados dificulta o exame das políticas de diversidade e preserva a aparência de neutralidade das decisões institucionais.
A branquitude opera como norma quando a presença branca ocupa a maior parte dos espaços de comando e aparece como representação neutra da competência, da cultura e do interesse público. A questão envolve repertórios, relações de poder e critérios usados para definir o que merece financiamento, espaço e reconhecimento.
A Fundação Catarinense de Cultura possui editais, programas e ações voltados à diversidade cultural, às culturas negras e afro-brasileiras, aos povos originários, às diversidades e à acessibilidade.
A coerência entre essas políticas e as decisões tomadas nos equipamentos culturais precisa fazer parte do debate público. Uma política de diversidade alcança seus objetivos quando modifica as condições de produção e circulação e amplia a presença de diferentes grupos nas estruturas de decisão.
NEGRUM3
Entre os filmes que se destacaram nas quatro edições do Festival Cinema Negro SC está NEGRUM3, curta-metragem dirigido por Diego Paulino.
A obra apresenta um ensaio sobre negritude, viadagem e aspirações espaciais dos filhos da diáspora. Corpos negros atravessam São Paulo pela performance, pelo carnaval, pela música, pela moda e pela imaginação afrofuturista.
NEGRUM3 constrói sua linguagem a partir do corpo, da sexualidade, da performance e da imaginação. Esses elementos organizam a estrutura estética do filme e orientam sua relação com a memória, o desejo e a experiência diaspórica.
A obra integra a programação do 1º Circuito Cinema Negro SC, que antecede a quinta edição do festival. Sua presença no circuito amplia a circulação de uma produção fundamental do cinema negro brasileiro e reforça a importância de criar espaços permanentes para obras produzidas por realizadores negros.
Cinema negro, cinema LGBTQIA+, cinema experimental e outras linguagens historicamente marginalizadas dependem de redes de exibição para alcançar novos públicos. Dependem também de políticas culturais capazes de reconhecer suas especificidades e garantir sua circulação.
A diversidade cultural passa pelas telas e pelas condições que permitem a existência dessas telas.
Quem escreve os pareceres?
O parecer institucional possui força administrativa. Pode determinar o acesso de uma obra a um equipamento público, interferir na circulação de um festival e restringir o contato do público com determinadas linguagens.
Cada avaliação merece ser examinada como documento administrativo e como registro de uma concepção de cultura.
Uma avaliação técnica pode verificar duração, formato, qualidade do arquivo, classificação indicativa, condições de projeção e outros aspectos objetivos. Uma avaliação curatorial pode analisar o conjunto da programação, sua relação com o espaço, o público e a proposta do equipamento.
Uma avaliação baseada em critérios morais precisa ser identificada como tal. O limite entre essas dimensões deve estar explícito, principalmente quando a decisão afeta eventos relacionados à cannabis, às políticas de drogas, às sexualidades dissidentes ou a outras pautas submetidas com frequência a julgamentos externos ao campo artístico.
Um cinema público abriga diferentes concepções de mundo. Sua programação pode apresentar obras experimentais, políticas, religiosas, eróticas, violentas, documentais, históricas, militantes ou controversas. A história do cinema está repleta de imagens que desafiaram os padrões morais de seu tempo.
A função de uma instituição cultural pública inclui criar condições para que essas obras encontrem o público em contextos curatoriais responsáveis. Classificação indicativa, curadoria e administração do espaço possuem atribuições próprias. A escolha das obras deve obedecer a critérios conhecidos, justificáveis e passíveis de contestação.
A frase “não estão de acordo com a programação do Centro Integrado de Cultura” deixa em aberto o fundamento da decisão. A divulgação desse fundamento é indispensável para que a sociedade possa avaliar o procedimento.
Ao impedir a realização de um festival, o Estado define uma ideia de cultura pública. Ao restringir o acesso de determinado evento a uma sala, interfere na circulação das imagens que esse evento apresentaria.
O 1º Circuito Cinema Negro SC chega a esse cenário com uma programação construída a partir de filmes que marcaram as edições anteriores do festival. NEGRUM3 participa dessa trajetória e amplia o campo de imagens disponíveis ao público catarinense.
O Cinema do CIC pertence à estrutura cultural do Estado. Saber quem decide o que pode chegar à sua tela significa conhecer os critérios que definem aquilo que o público catarinense poderá ver, e aquilo que permanecerá de fora.


